Somsacional: O Balafon

Imagem de capa: Balafon. Acervo Dutch Wikipedia, 2005. Licença CC-BY-SA-3.0.

Olá, eu sou o Balafon.

Aproximem-se, jovens.  Sentem-se no chão, sintam a terra sob os pés e escutem com atenção.

Sou antigo, muito mais antigo do que muitos reinos que vocês conhecem.

Balafon, século XX?, Senegal. Fotos Jean-Marc Anglés. Acervo da Philharmonie de Paris, Museé de la Musique.

Meu nome é Balafon — embora alguns de vocês me chamem de Bafalon, pois os nomes mudam com as línguas e os caminhos, mas minha alma permanece a mesma.

Eu nasci na África Ocidental, uma região de savanas, florestas tropicais e zonas semiáridas, grandes rios, como o Níger e o Senegal, com uma intensa circulação histórica de pessoas, ideias e culturas. E onde o Sol aquece a savana e os povos escutam a música antes mesmo de aprender a falar.

Fui criado pelas mãos sábias de povos africanos, há centenas de anos:

  • os povos mandingas (parte do grande grupo dos povos mandê, um dos mais antigos da África Ocidental),
  • os povos bambaras (também pertencem ao grupo mandê e são hoje um dos maiores grupos étnicos do Mali)
  • e os povos senufôs (Sociedades e comunidades Poro, na Costa do Marfim e Burkina).

Meus nomes são histórias

Ganhei muitos nomes, dependendo da língua e da região onde fui criado.

Sou Balafon (nome mais conhecido), nome que vem das línguas mandingas. Bala = instrumento / som e Fon = voz / fala. Sou a voz do instrumento, sou maior.

Sou Bala, a forma mais curta e ancestral do nome. Posso variar de médio a grande e minha afinação é tradicional (sem padrão ocidental). Meu som é profundo e orgânico.

Sou Balan, uma variação linguística regional de “Balafon”. Geralmente sou grande, tenho mais cabaças. Meu som é grave e solene. Costumo ter um status simbólico elevado, ligado à tradição e à autoridade.

Sou Balani, diminutivo de Bala. Sou menor e mais leve, e o mais agudo. Sou alegre, dinâmico e muito usado no dia a dia.

Mas não sou apenas um instrumento: sou memória, história e espírito.

Minha música ecoa principalmente em terras que hoje vocês chamam de: Mali, Guiné, Burkina Faso, Costa do Marfim, Gana e Senegal. Nessas terras, eu acompanhei reis, guerras, colheitas e nascimentos. Fiz parte do poderoso Império do Mali, tocado nos palácios e nas aldeias.

Povo Susu com djembê e balafon. Fotografia apresentada na Exposição Colonial Internacional de Paris em 1931.
Acervo Biblioteca Nacional da França/ Gallica.

Meu corpo e minha voz

Olhem para mim com atenção. Meu corpo é feito de:

Lâminas de madeira apenas com madeiras duras africanas muito bem selecionadas, valorizadas por sua densidade, resistência e qualidade acústica.

As principais madeiras são da árvore Béné, chamada também de Kosso ou Pau-sangue africano (Pterocarpus erinaceus) da África Ocidental. É a madeira mais tradicional e valorizada. Ela é extremamente dura edensa, produz som quente, encorpado e duradouro e tem excelente estabilidade após secagem. Ela mantém a afinação por décadas pois resiste à umidade e às variações climáticas.

Kosso / Bené (Pterocarpus erinaceus). © cteteli, Benin, 2024. Acervo iNaturalist. Licença CC-BY-NC-4.0.
Kosso / Bené (Pterocarpus erinaceus). © Aliou Balde, Gâmbia, 2026. Acervo iNaturalist. Licença CC-BY-NC-4.0.

Outra madeira é o Mogno africano (Khaya senegalensis) da África Ocidental e Sahel. É muito usada em balafons regionais, como alternativa ao Pau-sangue africano quando este é escasso. A madeira é dura, mas um pouco mais leve. Tem um som claro e equilibrado, sendo mais fácil de esculpir. Tem um timbre um pouco menos grave que o Pau-sangue africano e uma ótima projeção sonora.

Mogno africano (Khaya senegalensis). © Mohamed Saoupkai, Benin, 2021. Acervo iNaturalist. Licença CC-BY-NC-4.0.
Mogno africano (Khaya senegalensis). © didolanvijustin, Benin, 2019. Acervo iNaturalist. Licença CC-BY-NC-4.0.

Também usam a Doussiê africana (Afzelia africana) de Mali, Burkina Faso, Guiné e Costa do Marfim. É usada por artesãos tradicionais em áreas mandingas. É muito dura e resistente, tem grãos fechados e alta durabilidade. Seu som é brilhante, com uma excelente resposta percussiva.

Doussiê africana (Afzelia africana) © Amadou Bahleman Farid, Benin, 2020. Acervo iNaturalist. Licença CC-BY-NC-4.0.
Doussiê africana (Afzelia africana) © Mamoudou Diallo, Senegal, 2026. Acervo iNaturalist. Licença CC-BY-NC-4.0.

E também usam a planta Doka (Isoberlinia doka) ou a planta Kpalso (Isoberlinia tomentosa) também chamada de pielega, malembe, mutobo, mutondo e mutoto em diferentes regiões nas Savanas da África Ocidental. Está presente em balafons ancestrais mais antigos. É uma madeira dura e pesada, com boa ressonância natural. Seu som é grave e orgânico, muito ligado a usos rituais.

Doka, abogo ou Sau (Isoberlinia doka). © Umar Musa, Nigéria, 2025. Acervo iNaturalist. Licença CC-BY-NC-4.0.
Kpalso ou Mutoto (Isoberlinia tomentosa). © ong_pepiniere_d_afrique, Benin, 2023. Acervo iNaturalist. Licença CC-BY-NC-4.0.

As teclas de madeira são dispostas como uma escada sonora, do grave ao agudo.

Abaixo de cada lâmina, há uma cabaça ressonadora. Algumas dessas cabaças têm uma fina membrana feita de teia de aranha ou material vegetal seco. É isso que dá à minha voz um zumbido vibrante, como se os ancestrais cantassem junto comigo.

Meus tipos e variações

Meu som é Quente, Profundo e muito Vivo. É capaz de fazer o corpo dançar e o espírito viajar.

E, assim como as pessoas, eu também tenho famílias. Cada tipo responde a uma função diferente, mas todos carregam o mesmo coração africano.

Bafalon e dois tambores. Tchad. Exposition coloniale internationale de Paris, 1931.
Fotografia Paul Pivot, Acervo Biblioteca Nacional da França/ Gallica.

Balafon pentatônico – comum em rituais mais antigos.

Tem uma escala pentatônica (5 notas por oitava), não segue o padrão tonal europeu. A afinação é tradicional, transmitida oralmente. Usado principalmente em rituais espirituais, iniciações, acompanhamento de danças tradicionais e da narração oral por griôs. Sua sonoridadeé hipnótica, circular e muito ligada ao corpo e à dança. É o tipo mais próximo do balafon ancestral, preservando práticas muito antigas da África Ocidental.

Sudão francês (Mali). Músicos Balafon, bambara e tambor. Fotografia Paul Pivot. Exposição Colonial Internacional de 1931.
Acervo Biblioteca Nacional da França. Gallica.

Balani (ou Balanji)– versão menor e mais aguda, usada em festas. O mais festivo e popular.

Sua afinação geralmente é pentatônica, mas, às vezes simplificada. Sempre usado em festas, casamentos, celebrações populares e na música de rua e dança rápida. É de menor tamanho, muito leve, portátil e tem menos teclas. Por ser menor, tem uma sonoridade mais aguda, rápida e energética. É o balafon do cotidiano, associado à alegria, movimento e encontro coletivo.

Bafalon tocado por militar. Moçambique, Exposition coloniale internationale de Paris, 1931.
Fotografia Paul Pivot, Acervo Biblioteca Nacional da França/ Gallica.

Balafon diatônico – usado em músicas tradicionais.

É uma ponte entre a tradição africana e a harmonia ocidental. Tem uma escala diatônica (7 notas por oitava). Assim, permite tocar melodias mais próximas da música europeia. Bastante usado em festas comunitárias, no ensino musical e em performances interculturais. Sua sonoridade é mais variada harmonicamente, permite modulações simples e mantém o timbre africano tradicional. Representa uma adaptação africana, não uma imposição europeia: a forma muda, mas o espírito permanece.

Balafon de concerto – adaptado para palcos modernos e salas de concerto.

Sua afinação tem o padrão ocidental (temperamento igual), sendo compatível com piano, orquestra e jazz. Está presente em conservatórios, palcos internacionais e na música contemporânea e “world music”. É usado em performances formais, no diálogo com música erudita e jazz e em pesquisa musical. Tem uma estrutura reforçada, afinação fixa e, às vezes, sem membranas de zumbido. Sua sonoridade é mais controlada, menos “orgânica” e com maior projeção e precisão. É o tipo mais aceito no mundo ocidental, embora perca parte do caráter ritual do balafon tradicional.

A Minha Acústica

Por isso, a  nota “base” muda de aldeia para aldeia. A afinação pode variar de 20 a 50 cents (ou mais) sem ser considerada “errada”. O importante é a relação entre as teclas, não o valor absoluto em vibrações por segundo (Hz).

A escala mais comum é equivalente, em termos relativos, à Pentatônica maior africana: 1 – 2 – 3 – 5 – 6. Se for comparada ao sistema ocidental (apenas como analogia) seria aproximadamente as notas:

1 – tônica ( Dó).

2 – passo (Ré)

3 – terça (Mi, ligeiramente baixa)

5 – quinta (Sol)

6 – sexta (Lá)

A 3ª e a 6ª frequentemente não coincidem exatamente com a afinação temperada pois muitas tradições usam terças neutras (entre maior e menor).

Intervalos em razões (muito usados na prática tradicional)

Em vez de Hz fixos, podemos pensar em razões de frequência, que refletem melhor a lógica ritual:

1 – 1/1 – Fundamental

2 – 9/8 – Tom inteiro

3 – ~ 5/4 ou neutra – terça flexível

5 – 3/2 – quinta justa

6 – 5/3 – sexta

Essas razões não são calculadas matematicamente na construção, mas surgem do ajuste de ouvido, da cabaça ressonadora e do contexto vocal.

Exemplo de frequências (modelo aproximado)

Apenas para referência sonora, supondo uma tônica próxima de 220 Hz (mais comum em balafons graves rituais):

1 – 1/1 – Fundamental  – 220 Hz

2 – 9/8 – Tom inteiro  – 247 Hz

3 – ~ 5/4 ou neutra – terça flexível – 275 a 280 Hz

5 – 3/2 – quinta justa – 330 Hz

6 – 5/3 – sexta – 365-370 Hz

Em outra aldeia, a mesma escala poderia começar em 180 Hz, 200 Hz ou 250 Hz, sem mudar sua identidade cultural.

Nos contextos mais antigos, o balafon não é “temperado”; cada tecla é ajustada em relação às outras. O instrumento é pensado como uma extensão da fala, um mediador entre ancestrais e vivos. É um instrumento de tempo cíclico, não harmonia vertical.

O som “vive” no ritual, não no número de vibrações por segundo.

Na África, a música nunca é só música

Eu não sirvo apenas para entreter. Na África, a música nunca é só música.

Eu:

Acompanho os griôs, guardiões da história

Narro genealogias e feitos de heróis

Participo de rituais de iniciação

Celebro casamentos e colheitas

Comunico mensagens espirituais

Quando sou tocado corretamente, dizem que os ancestrais se aproximam para escutar.

Minhas histórias são preservadas em Museus

“Bala”, imagens de balafon, século 19, povos Mandinka. Acervo do The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque, The Crosby Brown Collection of Musical Instruments, 1889. THE MET Museum. Licença de Domínio Público.

Este balafon de madeira tem origem na região de Mandé, na África Ocidental, área que corresponde ao antigo Império Mandé (1235–1469), abrangendo os atuais Mali, Senegal, Guiné, Guiné-Bissau e Gâmbia. O balafon é o principal instrumento do jeli Malinkegriôs da cultura malinké (mandinga), tradição patrilinear de músicos e narradores responsáveis por funções sociais, históricas e cerimoniais.

As narrativas jeli sobre a origem do balafon variam, mas compartilham a figura de Sumanguru Kanté, governante do reino de Sosso/Kaniaga, e a importância dos numulu (ferreiros). Nos epos mandingas (como a Epopeia de Sundiata), Sumanguru é retratado como um “rei‑feiticeiro”, dotado de poderes sobrenaturais, associado a objetos mágicos (especialmente um balafon) e a práticas rituais tradicionais. Essa imagem mistura história e mito, típica das narrativas transmitidas pelos jeliw (griôs).

Um elemento recorrente é a transferência simbólica do balafon mágico de Kanté para Bala Faseke Kouyaté, o primeiro grande balafonista Malinke, representando a passagem do poder dos ferreiros para os guerreiros com o surgimento do Império Mandé no século XIII. Ele foi o jeli (griô) pessoal de Sundiata Keita, fundador do Império do Mali. Foi “oferecido” a Sundiata por seu pai, o rei Naré Maghann Konaté, conforme a tradição mandinga que diz que cada príncipe herda um griô para aconselhá‑lo e guardar sua memória. É considerado o ancestral fundador do clã Kouyaté, uma das mais importantes linhagens hereditárias de griôs da África Ocidental.

Segundo o etnomusicólogo Eric Charry, o instrumento da coleção do Museu MET se assemelha ao Susu Bala, o balafon original atribuído a Kanté, preservado há gerações pela família Kouyaté em Niagassola, Guiné.

O instrumento é composto por ripas de madeira defumadas, afinadas e fixadas com cordas de couro sobre uma estrutura quadrangular — característica que o distingue de outros xilofones da África subsaariana. Sob as ripas, quatorze ressonadores de cabaça (batolu) são dispostos em zigue-zague e sustentados por cavilhas. Cada batolu possui um orifício coberto por um talingjalo, uma membrana vibratória tradicionalmente feita com seda de teia de aranha, hoje muitas vezes substituída por papel de cigarro ou plástico.

Ao serem percutidas com baquetas de ponta de borracha, as ripas produzem som que é amplificado pelos ressonadores e modulado pela vibração do talingjalo, criando um timbre característico.

O balafon Malinke é geralmente tocado por um único músico, com as ripas organizadas da direita para a esquerda, das notas mais graves às mais agudas. As execuções costumam começar com uma introdução melódica, seguida pelo kumbengo, um padrão rítmico repetitivo tocado pela mão direita. A mão esquerda dialoga com esse padrão por meio de variações, síncopes e improvisações. Em apresentações coletivas, um músico mantém o kumbengo enquanto os demais criam padrões rítmicos entrelaçados, demonstrando virtuosismo e complexidade musical.

Fonte: Adaptado da descrição de balafon do acervo do museu THE MET.

Meu encontro com o mundo ocidental

Balafon – Museu Africano de Olkusz. Małopolska Virtual Museums. Instituto de Cultura Małopolska em Cracóvia, Polônia.

Durante muito tempo, fiquei longe dos salões da Europa, mas quando estudiosos, músicos e viajantes começaram a me escutar, algo mudou.

Eles perceberam que meu som influenciou o xilofone europeu; minha estrutura inspirou a marimba; e meu ritmo vive no jazz, na música contemporânea e na “world music” (músicas tradicionais).

Hoje, sou ensinado em conservatórios, tocado em palcos internacionais e estudado por músicos do mundo inteiro.

Ainda assim, meu espírito permanece africano.

Minha mensagem a vocês

Jovens, lembrem-se:

eu sou mais do que madeira e som.

Sou prova de que:

A África sempre produziu ciência, arte e filosofia

A música é uma forma de resistência

A ancestralidade fala através do ritmo

Quando vocês me escutarem, não ouçam apenas com os ouvidos.

Ouçam com o coração.

Pois cada nota minha diz:

“Nós sempre estivemos e estaremos aqui.”

Deixe um comentário