Imagem de capa: Escultura “Dignidade da Terra e do Céu“, com 15 metros de altura do artista Dale Claude Lamphere. É um projeto que, segundo ele, homenageia a comunidade indígena de seu estado natal e demonstra o que pode ser feito com aço inoxidável.
Em 2026, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (Brasil) vai celebrar o tema Mulheres na Ciência. Vamos aproveitar para divulgar ações voltadas para Mulheres e Diversidade na Ciência.
Iniciaremos, com os posteres educativos do Programa Woman in STEM, Diversity in STEM, uma iniciativa canadense da Ingenium que visa engajar, promover e manter o interesse de jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).
Essas pessoas sempre fizeram contribuições importantes para as áreas de STEM ao longo da história, mas a desigualdade persiste, especialmente nos mais altos escalões da academia e da indústria.
Sua missão é contribuir para os esforços internacionais em prol da equidade em STEM, celebrando conquistas e defensores, e lançando luz sobre preconceitos persistentes, muitas vezes implícitos. Existem múltiplas barreiras estruturais e culturais que contribuem para essa situação, e as causas são complexas. A Ingenium reconhece isso e desenvolve diversas estratégias sustentáveis e de longo prazo para engajar jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas em STEM.
O objetivo da iniciativa é combater a sub-representação em STEM e contribuir para os esforços em prol da equidade nessas áreas.
Apresentamos aqui a série de pôsteres educativos criados pela Ingenium, com cada semana, um pôster da série, usado com permissão.
Annette Sharon Lee
Astrofísica, professora e artista visual, Annette S. Lee também é a designer da Native SkyWatchers (NSW), uma organização que busca revitalizar o conhecimento indígena sobre o céu e as estrelas. A NSW busca comunicar o conhecimento de que os povos indígenas vivem de forma sustentável por meio de uma relação participativa com a natureza.

Para Me Conhecer Melhor: O céu também é o nosso lugar !
Uma narrativa fictícia, mas realista…
É uma alegria imensa estar aqui com vocês. Quero contar um pouco da minha história para que saibam, desde cedo, que há muitos caminhos possíveis até as estrelas — e todos eles podem começar exatamente onde vocês estão agora.
Eu sou Annette Sharon Lee, nasci nos Estados Unidos, em um contexto em que ciência, arte e identidade nem sempre caminhavam juntas.
Desde criança, eu olho para o céu com curiosidade e respeito, não apenas como um espaço distante, mas como parte viva da nossa história. E vejo estrelas, imaginando as histórias das constelações do céu noturno, sentindo uma forte sensação de conexão com elas.
Sou uma mulher indígena de etnia Lakota, da família Wanbli Luta (Águia Vermelha). Os Lakota são um dos três grandes ramos dos povos Sioux, junto com os Dakota e os Nakota. Historicamente, meu povo vivia nas Grandes Planícies, em áreas que hoje correspondem aos estados de Dakota do Sul, Dakota do Norte, Nebraska, Wyoming e Montana. Nós somos conhecidos como um povo de resistência à expansão colonial norte-americana, com lideranças como Tȟatȟáŋka Íyotake (Touro Sentado) e Maȟpíya Lúta (Nuvem Vermelha).
Meu povo desenvolveu um modo de vida profundamente conectado ao búfalo (essencial para alimentação, vestuário e espiritualidade), à vida comunitária, e a uma cosmovisão espiritual centrada na relação equilibrada entre humanos, natureza e o mundo espiritual.




Eu também tenho uma forte ligação comunitária com o povo Ojibwe, especialmente na região de Minnesota.
Os Ojibwe são também conhecidos como Ojibwa, Chippewa ou Anishinaabe e um povo indígena da América do Norte, pertencente ao grande grupo algonquino. São um dos maiores povos indígenas da América do Norte em número de comunidades. Vivem tradicionalmente na região dos Grandes Lagos, abrangendo hoje: Canadá: sul de Ontário, Manitoba, Saskatchewan e Estados Unidos: Michigan, Wisconsin, Minnesota e Dakota do Norte. Fazem parte, junto com os Odawa (Ottawa) e Potawatomi, do chamado Conselho dos Três Fogos, uma aliança política, militar e cultural histórica.
Minha identidade é mista, e crescer entre diferentes mundos me ensinou algo precioso:
Não precisamos escolher apenas um modo de conhecer o mundo.
Podemos caminhar com mais de um saber no coração.
Meus pais me ensinaram, mesmo sem discursos longos, o valor da escuta, da observação e do pertencimento. Aprendi com minha comunidade que o conhecimento não mora apenas nos livros, mas também nas histórias, nas canções, nos ciclos da natureza e no céu noturno que cobre todos nós.
Quando cresci, segui meus estudos com dedicação. Estudei matemática aplicada na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e artes visuais na Universidade de Illinois.
Mais tarde, continuei meus caminhos acadêmicos em dois mundos que muitos diziam ser distantes demais para caminhar juntos: fiz mestrado em belas‑artes em Yale
Então voltei a estudar ciências, obtendo eventualmente um mestrado em astrofísica na Universidade Washington, culminando em um doutorado em física e astronomia. Fiz isso porque acreditava — e ainda acredito — que
A ciência também pode ser poética,
e a arte também pode ser científica.
Com diplomas muito diferentes, criei uma oportunidade não apenas para usar tanto a arte quanto a astronomia, mas para honrar minha herança e preservá-la para as futuras gerações, ajudando a reverter parte da perda da cultura indígena causada pela colonização.
Minha pesquisa sempre esteve ligada a uma pergunta essencial:
Onde estão as nossas histórias no céu?
Foi assim que, em 2007, nasceu o projeto Native Skywatchers. Criei essa iniciativa para reunir cientistas, artistas, anciãos e jovens com o objetivo de revitalizar os conhecimentos astronômicos indígenas dos povos Ojibwe, Dakota e Lakota.
Juntas e juntos, mapeamos constelações tradicionais, produzimos materiais educativos, realizamos oficinas e mostramos que nossos povos sempre foram — e continuam sendo — observadores sofisticados do cosmos.
E aplico minhas habilidades como artista visual para criar ilustrações das constelações como meio de conectar arte, ciência e cultura.
Uma das produções mais reconhecidas do Native Skywatchers é a criação de mapas do céu noturno a partir das cosmologias Ojibwe e Dakota/Lakota.
Esses mapas foram desenvolvidos em colaboração direta entre: Annette S. Lee (ciência e arte), Carl Gawboy (pesquisador Ojibwe e professor) e William Wilson (artista e guardião do conhecimento Ojibwe).
Nesse vídeo, escute Carl Gawboy apresentar o Biboonkeonini criador do Inverno e Ojiig (Fischer) no canal de Annette Lee, seguindo o Protocolo Educativo de Emergência:
“Muitas culturas no Norte têm o protocolo de inverno. A informação de que esta é uma regra respeitosa a ser observada já se espalhou entre educadores e muitas outras pessoas. Nos últimos anos, muitos educadores indígenas e especialistas culturais têm buscado contornar o protocolo, alegando que se trata de uma “situação de emergência” nas comunidades indígenas. A única oportunidade que muitas crianças indígenas têm de ouvir essas histórias é em programas de enriquecimento de verão (onde se comprovou que as crianças indígenas se beneficiam). Alguns anciãos e especialistas culturais abrem exceções ao protocolo para fins de aprendizado (e que bom que eles consideram o panorama geral e o longo prazo, em vez de insistirem em uma interpretação tradicional). E existe uma emergência em relação aos jovens nas comunidades indígenas. Se essa flexibilidade nas “regras” puder ajudar, ótimo.” – Carl Gawboy.
Entre os principais mapas celestes, estão:
Ojíbwe Giizhig Anung Masinaaigan, Mapa do Céu Ojibwe
Um guia curricular sobre a Cosmologia Ojibwe em https://nativeskywatchers.com/articles/SamplePagesNSWcurriculum-workbook_FINAL.pdf
Makoce Wicanhpi Wowapi, o Mapa do Céu Dakota/Lakota.
Ininew Achakos Masinikan, Livro de Mapas Estelares numa perspectiva cultural Ininew Cree.
E ainda, 2 guias celestes:
Ojibwe Sky Star Map – Constellation Guidebook: An Introduction to Ojibwe Star Knowledge, 2014. Annette Sharon Lee, William Peter Wilson e Carl Gawboy.
Dakota/Lakota Star Map Constellation Guidebook: An Introduction to D(L)akota Star Knowledge, 2014. Annette Sharon Lee, Jim Rock e Charlene O’Rourke.
O programa visa beneficiar as comunidades indígenas melhorando as desigualdades na educação dos jovens, inspirando maior orgulho cultural e promovendo o bem-estar comunitário. Mas esses resultados não se limitam apenas às comunidades indígenas – qualquer pessoa pode ter um maior senso de admiração e relacionamento pessoal com o cosmos.
Meninas, quero que vocês saibam algo muito importante:
Vocês pertencem à ciência.
Vocês pertencem à arte.
Vocês pertencem ao céu.
Não deixem que digam que esse lugar não é de vocês.
Levem sua cultura, sua história, sua curiosidade e sua coragem para onde quiserem chegar.
Quando vocês olharem para as estrelas, lembrem‑se:
… há ancestrais olhando com vocês
e futuras gerações esperando por vocês.
Para conhecer algumas estrelas-constelações histórias visite os trabalhos de Annette Lee
e de Judy Volker sobre cosmopercepções dos povos Sioux.

