Imagem de capa: A neuropsicóloga Brenda Milner no TEDxMcGill, 2011. Foto de Eva Blue. Licença CC-BY-2.0.
Em 2026, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (Brasil) vai celebrar o tema Mulheres na Ciência. Vamos aproveitar para divulgar ações voltadas para Mulheres e Diversidade na Ciência.
Iniciaremos, com os posteres educativos do Programa Woman in STEM, Diversity in STEM, uma iniciativa canadense da Ingenium que visa engajar, promover e manter o interesse de jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).
Essas pessoas sempre fizeram contribuições importantes para as áreas de STEM ao longo da história, mas a desigualdade persiste, especialmente nos mais altos escalões da academia e da indústria.
Sua missão é contribuir para os esforços internacionais em prol da equidade em STEM, celebrando conquistas e defensores, e lançando luz sobre preconceitos persistentes, muitas vezes implícitos. Existem múltiplas barreiras estruturais e culturais que contribuem para essa situação, e as causas são complexas. A Ingenium reconhece isso e desenvolve diversas estratégias sustentáveis e de longo prazo para engajar jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas em STEM.
O objetivo da iniciativa é combater a sub-representação em STEM e contribuir para os esforços em prol da equidade nessas áreas.
Apresentamos aqui a série de pôsteres educativos criados pela Ingenium, com cada semana, um pôster da série, usado com permissão.
Brenda Milner: Como criar e manter memórias?
Brenda Milner estudou a função e a estrutura do cérebro humano e ajudou a estabelecer como os hemisférios do cérebro interagem. O trabalho de Milner nos proporcionou uma compreensão maior de processos cognitivos, como aprendizagem e memória. Ela desempenhou um papel fundamental na formação da neuropsicologia moderna.

Para Me Conhecer Melhor
(Narrativa ficcional da cientista falando de sua vida e de suas pesquisas a jovens )
Olá, sou Brenda Milner, nasci em Manchester, Inglaterra, em 1918. Eu era uma criança curiosa e precoce, que já falava alemão fluentemente aos 6 anos, e depois aprendi francês.
Meu nome de nascimento era Brenda Langford. Minha família tinha formação artística, especialmente musical. Meu pai Samuel Langford era crítico musical, jornalista e professor. E minha mãe Leslie Doig era estudante de canto que estudou com meu pai. Eu cresci em um lar intelectualizado, em contato com a arte, a música e a literatura, o que ampliou minha curiosidade e disciplina intelectuaL
Apesar de meus pais serem talentosos na música, eu não tinha nenhum interesse pessoal pela música — e isso me levou a buscar outras áreas desde cedo.
Da Matemática à Psicologia e daí, a Neurociência
Eu fui tutelada pelo pai em matemática e artes até os 8 anos, o que contribuiu para meu desenvolvimento cognitivo e interesse pela área acadêmica.
Assim, acabei começando meus estudos em Matemática no Newnham College (Cambridge), mas percebi que não esse era o meu caminho. Minha formação ampla, estimulada pela família, facilitou minha migração para a psicologia — área que depois me levaria à neurociência.
Foi lá que conheci meu futuro marido, o engenheiro elétrico Peter Milner.
Nós nos casamos em 1944. E nesse mesmo ano, Peter foi convidado a vir ao Canadá para trabalhar em pesquisa atômica, e nos mudamos para Montreal, onde passei a lecionar no Instituto de Psicologia da Universidade de Montréal.
Mais tarde, Peter Milner também se tornou um neuropsicólogo. Ele também fez contribuições importantes à neurociência, incluindo pesquisas pioneiras sobre o sistema de recompensa cerebral.
Em 1950, eu retomei os estudos na Universidade McGill e iniciei o meu doutorado em Psicologia sob a orientação do Dr. Donald Olding Hebb – o pai da neuropsicologia – onde estudei os efeitos intelectuais de danos ao lobo temporal.
Depois, conseguiu uma posição de pesquisa com estabilidade na Wilder Penfield The Neuro (Instituto Neurológico de Montreal da McGill) onde estudava pacientes epilépticos. Por meio de meu trabalho, fui convidada a trabalhar com um paciente que teve partes do cérebro removidas para controlar a epilepsia, tornando-o incapaz de formar novas memórias. Embora eu tenha trabalhado com ele por 30 anos, ele nunca se lembrou do meu nome.
O Paciente H.M. – Henry Gustav Molaison
Minhas pesquisas trouxeram contribuições para o campo da memória:
Descobri que existem diferentes tipos de memória. Antes, muitos cientistas achavam que a memória era uma coisa única, guardada de forma uniforme no cérebro. Meus estudos mostraram que isso era falso.
O famoso paciente H.M. foi Henry Gustav Molaison, um dos casos mais importantes da história da neurociência e da psicologia. Ele se tornou conhecido após uma cirurgia experimental em 1953 para tratar epilepsia severa. A operação removeu grandes partes de suas estruturas do lobo temporal medial, incluindo a maior parte do hipocampo. Embora a cirurgia tenha reduzido suas crises epilépticas, ela deixou H.M. com amnésia profunda: ele não conseguia formar novas memórias de longo prazo. Ele também perdeu parte das memórias dos anos imediatamente anteriores à cirurgia.
Ele não conseguia formar novas memórias de fatos (ex.: o que aconteceu ontem), mas ainda conseguia aprender novas habilidades motoras (como desenhar uma estrela olhando num espelho). Ou seja, um tipo de memória pode falhar enquanto outro continua funcionando.
O estudo de seu caso revolucionou a ciência porque demonstrou, pela primeira vez, que:
o hipocampo é essencial para converter experiências em memórias duradouras,
existem diferentes sistemas de memória (por exemplo: memória declarativa vs. memória de habilidades),
memória e inteligência não são a mesma coisa — H.M. manteve raciocínio, linguagem e capacidade de aprender habilidades motoras, mesmo sem lembrar que as havia aprendido.
Assim, H.M. tornou-se um marco científico e seu caso é considerado fundamental para entender como o cérebro humano armazena memórias.
Isso revolucionou tudo: provou que o cérebro tem módulos diferentes para diferentes tipos de memória.
Estudando pacientes com lesões, percebemos que o cérebro pode compensar perdas usando outras áreas quando uma região é danificada — algo hoje conhecido como neuroplasticidade. Essa ideia era revolucionária na época.
E também construi mapas do funcionamento dos lobos temporais, detalhando como os lobos temporais estão ligados à memória e como certas cirurgias ou lesões nos lobos afetam o comportamento e a cognição.
E para entender como diferentes áreas do cérebro funcionam, desenvolvi testes simples que continuam sendo usados no mundo todo para avaliar pessoas com danos cerebrais.
Eu ainda estou ativamente envolvida em pesquisas, principalmente usando tecnologia de imagem cerebral para estudar como a atividade cerebral difere ao falar uma segunda língua e o papel do lobo temporário medial na recordação de memórias.
A pesquisa de Brenda Milner em neuropsicologia foi parcialmente financiada pelo NSERC.

