Mulheres STEM: Hedy Lamarr

Imagem de capa: Hedy Lamarr, em BombShell, The Hedy Lamarr Story (2017).

Em 2026, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (Brasil) vai celebrar o tema Mulheres na Ciência. Vamos aproveitar para divulgar ações voltadas para Mulheres e Diversidade na Ciência.

Iniciaremos, com os posteres educativos do Programa Woman in STEM, Diversity in STEM, uma iniciativa canadense da Ingenium que visa engajar, promover e manter o interesse de jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).

Essas pessoas sempre fizeram contribuições importantes para as áreas de STEM ao longo da história, mas a desigualdade persiste, especialmente nos mais altos escalões da academia e da indústria.

Sua missão é contribuir para os esforços internacionais em prol da equidade em STEM, celebrando conquistas e defensores, e lançando luz sobre preconceitos persistentes, muitas vezes implícitos. Existem múltiplas barreiras estruturais e culturais que contribuem para essa situação, e as causas são complexas. A Ingenium reconhece isso e desenvolve diversas estratégias sustentáveis e de longo prazo para engajar jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas em STEM.

O objetivo da iniciativa é combater a sub-representação em STEM e contribuir para os esforços em prol da equidade nessas áreas.

Apresentamos aqui a série de pôsteres educativos criados pela Ingenium, com cada semana, um pôster da série, usado com permissão.

Hedy Lamarr: Inventora

Pôster Ingenium

Mais do que uma atriz talentosa, Lamarr colocou suas habilidades inovadoras em prática para inventar uma tecnologia de mudança de frequência para ondas de rádio e auxiliar o esforço de guerra. Sua invenção tornou-se a base das tecnologias Bluetooth e Wi-Fi.

Para Me Conhecer Melhor

Olá, eu sou Hedy Lamarr.

Meu nome de nascimento foi Hedwig Eva Maria Kiesler.

Nasci em 9 de novembro de 1914, em Viena, então parte do Império Austro-Húngaro. Venho de uma família judia de classe média, onde a curiosidade sempre encontrou espaço para florescer.

Meu pai, Emil Kiesler, era banqueiro. Foi ele quem despertou em mim o fascínio pela engenharia, pelas máquinas e pelo funcionamento das coisas. Lembro-me de nossos longos passeios, quando ele desmontava mentalmente o mundo à nossa volta — motores, pontes, sistemas — e me explicava tudo com paciência.

Minha mãe, Gertrud, era pianista. Dela herdei o amor pela arte, pelo ritmo e pela sensibilidade.

Desde cedo, tornei-me uma ponte entre dois mundos: o da imaginação artística e o da lógica científica.

Estudei em escolas conceituadas de Viena e, ainda jovem, ingressei em cursos ligados às artes cênicas. A atuação me seduzia, mas nunca deixei de alimentar minha mente analítica. Mesmo quando minha carreira cinematográfica começou a ganhar forma, eu continuava estudando física, matemática e engenharia por conta própria, muitas vezes à noite, sozinha.

A curiosidade nunca me abandonou — e talvez esse tenha sido meu maior talento.

Ainda jovem, atuei em filmes europeus e, ao emigrar para os Estados Unidos, assumi o nome artístico Hedy Lamarr. Em Hollywood, tornei-me conhecida como “a mulher mais bonita do mundo”, especialmente com a personagem Dalila – que derrotou a força de Sansão.

Mas a beleza, descobri, pode ser tanto um presente quanto uma prisão.

Enquanto os estúdios viam apenas meu rosto, minha mente era sistematicamente ignorada.

Sempre que eu falava sobre ciência ou invenções, muitos riam.

Para eles, eu era um enfeite. Para mim, aquilo era um silêncio imposto.

Casei-me seis vezes ao longo da vida.

Em 1933, com Friedrich Mandl, um industrial austríaco muito rico, fabricante de armamentos e com fortes ligações com regimes autoritários da época, incluindo o fascismo italiano e o nazismo alemão.

Ele tinha 14 anos a mais, era extremamente poderoso e obsessivamente controlador. Ele tentava me manter afastada da carreira artística e, paradoxalmente, foi ouvindo suas reuniões com engenheiros e militares que aprendi muito sobre tecnologia bélica e sistemas de comunicação — conhecimento que mais tarde se provaria fundamental.

Eu vivia em uma prisão dourada. E tive que fugir dele ao perceber sua aproximação de nazistas e poder conquistar minha liberdade. Me disfarcei de faxineira da mansão (havia uma parecida comigo) e fugi para nunca mais retornar…

Eu não fui bela, submissa, nem ornamental

Meus outros casamentos também enfrentaram dificuldades.

A expectativa era clara: eu deveria ser bela, submissa, ornamental.

Poucos aceitavam uma mulher que pensasse, questionasse e criasse.

E, muitas vezes, precisei escolher entre minha independência intelectual e a ideia tradicional de esposa.

Paguei um preço alto por querer ser mais do que esperavam de mim.

Sou Atriz e Inventora

Durante a Segunda Guerra Mundial, com o desejo de ajudar no combate ao nazismo, trabalhei com o compositor George Antheil em uma ideia revolucionária: um sistema de salto de frequência para comunicações seguras.

Criamos um método que permitiria que sinais de rádio mudassem constantemente de frequência, impedindo sua interceptação ou bloqueio — algo essencial para o controle remoto de torpedos.

Na época da Segunda Guerra Mundial, os militares usavam rádio para controlar torpedos (armas que iam pelo mar). O problema era que o inimigo podia interceptar o sinal ou bloquear o sinal, fazendo o torpedo perder o controle. Ou seja, era fácil atrapalhar a comunicação.

Imagine que duas pessoas estão conversando por walkie‑talkie em um único canal. Se alguém descobrir esse canal, pode ouvir tudo ou atrapalhar a conversa. Mas, e se a conversa mudasse de canal o tempo todo, bem rápido, seguindo um padrão secreto?

O transmissor e o receptor combinam uma sequência secreta.

Eles mudam de frequência muitas vezes por segundo.

Quem não conhece a sequência: não consegue ouvir e não consegue bloquear o sinal.

É como se a mensagem estivesse pulando entre várias estradas diferentes, tão rápido que ninguém consegue seguir. Isso é o “salto de frequência”, só que com ondas de rádio. Ela é usada hoje em Wi‑Fi, Bluetooth, GPS e redes de celular.

Registramos a patente em 1942, mas, na época, poucos levaram a ideia a sério.

Uma atriz inventora não parecia confiável. Nossa contribuição foi engavetada… e só décadas depois seria reconhecida como base das tecnologias que hoje sustentam o Wi‑Fi, o Bluetooth, o GPS e as comunicações celulares.

A invenção foi usada — mas eu fui esquecida. Durante muito tempo, ninguém associou meu nome a isso.

Eu precisava pensar

Ser mulher na ciência era — e ainda é — enfrentar descrédito constante.

Ser uma mulher bonita tornava tudo ainda mais difícil.

Muitos presumiam que beleza e inteligência não podiam coexistir.

Ouvi incontáveis vezes: “Você não precisa pensar.”

Mas eu precisava. Porque pensar é viver.

Somente nos últimos anos de minha vida comecei a receber algum reconhecimento pelo meu trabalho científico. Não o fiz por fama ou dinheiro, mas para provar — a mim mesma e ao mundo — que mulheres podem criar, inventar e transformar a tecnologia.

Em 2017, com o documentário BombShell: The Hedy Lamarr Story, minha verdadeira história virou filme.

Minha história não é apenas sobre cinema ou invenções.

É sobre resistir às expectativas.

É sobre não aceitar os limites impostos pelo gênero, pela aparência ou pelos rótulos.

Se alguma menina hoje se sente dividida

entre a arte e a ciência,

entre o sensível e o racional,

espero que minha vida lhe diga:

Você não precisa escolher.

Você pode ser tudo isso — e muito mais.

O túmulo memorial em Viena

O memorial de Lamarr é uma história sobre memória — e sobre quem decide quem merece ser lembrado.

Lamarr não teve instituições austríacas defendendo sua memória por décadas. Ela própria viveu reclusa e afastada da Áustria.

Anthony Loder, seu filho, iniciou uma luta pessoal de 14 anos para que ela tivesse um túmulo honorário em Viena, com apoio de Susan Sarandon. Documentários e exposições internacionais forçaram Viena a reagir ao constrangimento cultural de ignorá‑la.

O memorial fúnebre (cenotáfio) de Hedy Lamarr foi inaugurado em 2014 no Cemitério Central de Viena (Zentralfriedhof).

Viena demorou a homenagear Hedy Lamarr porque ela expunha feridas históricas incômodas: o exílio judaico, o machismo científico, a fuga do nazismo e o fato de que o reconhecimento veio primeiro de fora, não de casa.

Na placa do memorial, está escrito:

“Os filmes têm um lugar específico em um determinado período de tempo.
A tecnologia é para sempre.”

Coleção Mulheres STEM

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