Mulheres STEM: Katherine Johnson

Imagem de capa: Katherine Johnson, meados dos anos 1960. Acervo NASA.

Em 2026, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (Brasil) vai celebrar o tema Mulheres na Ciência. Vamos aproveitar para divulgar ações voltadas para Mulheres e Diversidade na Ciência.

Iniciaremos, com os posteres educativos do Programa Woman in STEM, Diversity in STEM, uma iniciativa canadense da Ingenium que visa engajar, promover e manter o interesse de jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).

Essas pessoas sempre fizeram contribuições importantes para as áreas de STEM ao longo da história, mas a desigualdade persiste, especialmente nos mais altos escalões da academia e da indústria.

Sua missão é contribuir para os esforços internacionais em prol da equidade em STEM, celebrando conquistas e defensores, e lançando luz sobre preconceitos persistentes, muitas vezes implícitos. Existem múltiplas barreiras estruturais e culturais que contribuem para essa situação, e as causas são complexas. A Ingenium reconhece isso e desenvolve diversas estratégias sustentáveis e de longo prazo para engajar jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas em STEM.

O objetivo da iniciativa é combater a sub-representação em STEM e contribuir para os esforços em prol da equidade nessas áreas.

Apresentamos aqui a série de pôsteres educativos criados pela Ingenium, com cada semana, um pôster da série, usado com permissão.

Katherine Johnson: Uma Mente Sem Limites

Poster Ingenium

Para Me Conhecer Mais

Eu nasci em um tempo em que o mundo dizia que meninas como eu — negras, curiosas, apaixonadas por números — tinham lugares muito pequenos para ocupar. Mas desde cedo aprendi que a cabeça, quando usada para pensar grande, não conhece fronteiras nem limites.

Eu me chamava Creola Katherine Coleman, filha de Joshua McKinley Coleman – um lenhador, fazendeiro, zelador e handyman que também trabalhou no Greenbrier Hotel e de Joylette Roberta Coleman (nascida Lowe) que era professora e valorizava profundamente a educação. Meus pais tiveram um papel fundamental em minha educação.

Quando eu era menina, gostava de olhar para o céu. Não porque ele fosse inalcançável, mas porque eu sentia que lá havia perguntas esperando por mim. E, como sempre dizia meu pai: Kathy, se quiser saber para onde está indo, aprenda a caminhar sabendo de onde veio.”

O começo: quando os números viraram meu idioma

Eu vinha do amor pela aprendizagem, dos números que nunca mentiam, da persistência que me fazia avançar mesmo quando portas se fechavam.

A matemática sempre falou comigo em voz clara, como uma música. Se para alguns os números eram frios, para mim eram passos de dança, cada equação um convite para descobrir um novo movimento.

O mundo racista e segregado dizia às pessoas negras: “Não estude! Não avance!

Eu cresci em uma comunidade segregada onde a escola para crianças negras só ia até a 6ª série. Estudei na escola primária segregada de White Sulphur Springs, que tinha apenas duas salas para sete séries. Mas meus professores identificaram meu talento desde cedo e saltei várias séries.

Como não havia ensino médio para estudantes negros na cidade, meu pai tomou uma decisão marcante: mudar com a família para Institute, em West Virginia, para que eu pudesse cursar o ensino médio no West Virginia Collegiate Institute – High School (hoje West Virginia State University). Meu pai trabalhava e retornava nos fins de semana, enquanto eu, minha mãe e meus irmãos morávamos perto da escola.

Fiz o curso superior na universidade West Virginia State College, uma instituição historicamente negra. Meu principal mentor foi o matemático Dr. W. W. Schieffelin Claytor. E me formei em Matemática e Francês em 1937, com máxima distinção.

Em 1939, fui uma das três primeiras pessoas negras (e a primeira mulher negra) a integrar a pós‑graduação da West Virginia University, após mudanças na legislação estadual. Estudei Matemática, mas precisei sair após um ano para casar e formar família. Me casei com James Francis Goble (1939–1956) que eu chamava de “Jimmie” e tivemos três filhas Connie, Kathy e Joylette. Ele era professor de química e colega de profissão. Nesse período, trabalhei como professora de matemática em escolas para negros na Virgínia e West Virginia. E, depois voltei ao trabalho quando minhas filhas ficaram maiores. Infelizmente, meu marido morreu de um tumor cerebral em 1956.

Em 1959, casei com meu segundo marido, um veterano do Exército dos EUA, James A. “Jim” Johnson (1959–2019) e ficamos juntos por 60 anos, até sua morte em 2019. E, por isso, fiquei conhecida com esse sobrenome.

Em 1953, um parente me avisou sobre vagas para mulheres negras matemáticas na West Area Computing – Langley Laboratory da NACA. Eu me mudei para Newport News, Virgínia, e ingressei como parte do grupo West Area Computers, liderado pela Dorothy Vaughan.

Quando finalmente entrei para a NACA — que mais tarde se tornaria a NASA — eu me senti como alguém que encontra a trilha que sempre soube seguir. Só havia um detalhe: eu era uma mulher. E uma mulher negra. E, naquela época, isso significava caminhar sempre contra o vento e tempestades.

Mas os números… ah, os números! Eles não pediam permissão para me aceitar. Eles apenas me deixavam trabalhar.

Superando barreiras: gênero, raça, a gravidade do planeta e a gravidade social

Havia portas etiquetadas como “somente para brancos”.

Havia salas onde meu nome demorava a ser pronunciado.

Haviam documentos que eu precisei lutar para assinar como autora.

Havia reuniões onde eu só podia entrar porque perguntei, insistindo com a coragem que se tem quando já se está acostumada a lutar por mesas e cadeiras.

Mas eu aprendi uma verdade poderosa: Quando você domina o que faz, o mundo não pode fingir que não vê seu talento.

Cada cálculo que eu entregava, cada relatório que eu revisava, cada equação com a qual eu brigava até madrugada — tudo isso era mais do que trabalho. Era uma forma de abrir caminho para quem viria depois.

Traçando rotas para além da Terra

Eu me tornei responsável por algo que parecia poesia: calcular o caminho que levaria seres humanos ao espaço.

Traçar uma trajetória orbital é como orientar um pássaro migratório a cruzar continentes sem jamais se perder.

Para a missão Mercury, por exemplo, eu calculei o ponto exato em que a cápsula de John Glenn deveria reentrar na atmosfera. Eram contas que pediam absoluta precisão — porque um erro de alguns centímetros no papel poderia significar quilômetros de diferença no céu.

A Missão Mercury foi o primeiro programa espacial tripulado dos Estados Unidos, conduzido pela NASA entre 1958 e 1963. Seu principal objetivo era simples, mas extremamente desafiador para a época:Colocar um ser humano em órbita da Terra e trazê-lo de volta em segurança.

Lembro-me bem do dia em que Glenn disse: “Get the girl to check the numbers.” — “Peçam para a moça verificar os cálculos.”

Aquela “moça” era eu.

E eu sabia que, quando os números estavam certos, ninguém poderia questionar a minha presença.

Glenn foi o primeiro americano a orbitar a Terra, em 1962, durante a missão Mercury‑Atlas 6. Ele completou três órbitas na cápsula Friendship 7. Em 1998, com 77 anos, ele voou na missão STS‑95, tornando-se a pessoa mais velha a ir ao espaço na época.

Apollo 11: quando os números tocam a Lua

Quando trabalhei nos cálculos que alinhariam a trajetória da Apollo 11, eu senti que estava segurando um fio invisível que conectava a Terra à Lua.

Era como fazer pontes no escuro: você não vê o caminho completo, mas sabe que ele precisa ser forte o suficiente para levar alguém aonde nunca ninguém esteve.

E quando Neil Armstrong deu seu “pequeno passo”, eu pensei em todas as meninas que nunca foram consideradas aptas para dar grandes saltos.

Como eu vejo a Matemática

Se eu pudesse explicar ciência a uma menina de forma simples, eu diria assim:

A matemática é como um mapa do tesouro.

Cada número é uma pista.

Cada fórmula, uma chave.

E se você quiser encontrar algo grandioso, precisa apenas continuar seguindo as pistas com paciência, coragem e curiosidade.

A ciência é uma janela.

Alguns tentam fechá-la para você.

Mas a verdade é: a janela se abre com o vento do furacão da determinação.

A mensagem que jamais deixarei de repetir

Falar da minha trajetória não é falar de mim apenas, mas de todas as mulheres e meninas que já ouviram “não é para você”.

Eu quero que vocês saibam:

Não deixem que ninguém calcule o valor da sua capacidade por vocês.

Se quiserem alcançar as estrelas, não peçam permissão: apenas descubram a rota.

Minha vida foi feita de números, sim.

Mas foi feita, principalmente, da certeza de que não existem limites para mentes que se recusam a ser limitadas.

E agora, passo a vocês o instrumento mais poderoso que carreguei:

o direito de ocupar qualquer lugar onde o seu talento possa brilhar
— até mesmo fora da Terra.

Para Saber Mais

Para conhecer mais detalhes visita a página oficial da Fundação Katherine Johnson, em https://www.katherinejohnsonfoundation.org/biography/

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