Imagem de capa: Lynn Conway visitando o MIT em 2008.
Em 2026, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (Brasil) vai celebrar o tema Mulheres na Ciência. Vamos aproveitar para divulgar ações voltadas para Mulheres e Diversidade na Ciência.
Iniciaremos, com os posteres educativos do Programa Woman in STEM, Diversity in STEM, uma iniciativa canadense da Ingenium que visa engajar, promover e manter o interesse de jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).
Essas pessoas sempre fizeram contribuições importantes para as áreas de STEM ao longo da história, mas a desigualdade persiste, especialmente nos mais altos escalões da academia e da indústria.
Sua missão é contribuir para os esforços internacionais em prol da equidade em STEM, celebrando conquistas e defensores, e lançando luz sobre preconceitos persistentes, muitas vezes implícitos. Existem múltiplas barreiras estruturais e culturais que contribuem para essa situação, e as causas são complexas. A Ingenium reconhece isso e desenvolve diversas estratégias sustentáveis e de longo prazo para engajar jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas em STEM.
O objetivo da iniciativa é combater a sub-representação em STEM e contribuir para os esforços em prol da equidade nessas áreas.
Apresentamos aqui a série de pôsteres educativos criados pela Ingenium, com cada semana, um pôster da série, usado com permissão.
Conway, eu sou Revolução!

Para Você Conhecer Minha História
(Narrativa ficcional da cientista falando de sua vida e de suas pesquisas a jovens )
Olá, meu nome é Lynn Conway e quero compartilhar um pouco da minha história com você.
Nasci em 1938, em Mount Vernon, no estado de Nova Iorque.
Desde criança, eu já sentia que algo dentro de mim não combinava com o jeito que o mundo me via. Eu fui criada como um menino — o gênero que me foi atribuído ao nascer — mas no meu coração eu sabia que era diferente. Esse conflito interno me acompanhou durante toda a infância e adolescência.
Eu nasci com o nome de Robert Saunders que usei enquanto vivi socialmente como menino.
Meu pai, Rufus Savage, era engenheiro químico, e isso a introduziu muito cedo ao universo da ciência, matemática e eletrônica. Ele despertou nela curiosidade e fascínio por áreas técnicas, o que ajudou a moldar seu futuro na computação e engenharia. Minha mãe, Christine Alice (Burney) Savage era professora, proporcionou um ambiente intelectual e acesso a livros. Além disso, ela vigiava mais rigidamente minha expressão de gênero, o que marcou profundamente minhas experiências de infância. Um dia, quando Lynn pedi um vestido, foi repreendida, e minha mãe passou a monitorar sinais de feminilidade.
Meus pais se separaram quando eu tinha 7 anos e fiquei com minha mãe. Essas experiências contribuíram para meu desenvolvimento intelectual e para os desafios emocionais ligados à minha identidade de gênero.
A transição de gênero
Eu fui uma das primeiras mulheres trans nos Estados Unidos a passar por uma cirurgia de afirmação de gênero, tendo iniciado minha transição na década de 1960. Durante minha juventude e início da vida adulta, eu vivi sob o gênero masculino imposto ao nascer, mas sempre soube que minha identidade era feminina.
Mesmo enfrentando essas incertezas, eu sempre tive uma grande paixão pela ciência. Comecei estudando física no MIT e depois me formei em Ciências e em Engenharia Elétrica na Universidade de Columbia. Eu queria entender como o mundo funcionava — especialmente o mundo dos computadores, que naquela época ainda estava nascendo.
Logo no começo da minha carreira, fui trabalhar na IBM, e lá fiz algumas descobertas importantes que ajudaram a abrir caminho para o que viria a ser o primeiro computador superescalar.
Mas a minha vida tomou um rumo difícil quando a empresa descobriu que eu estava passando por minha transição de gênero. Em 1968, fui demitida. De repente, perdi minha carreira, minha reputação e qualquer rede de apoio que eu pudesse ter. A IBM só pediria desculpas oficialmente em 2020.
Eu tinha me casado em 1963, tive duas filhas e nos divorciamos antes de eu começar o processo de transição. Foi um momento muito, muito duro, pois também perdi a guarda e o contato com minhas duas filhas. Esse afastamento foi imposto pelo sistema jurídico, pois as leis na época não permitiam mais o meu contato com elas.
Recomecei do Zero
Mas eu não desisti. Comecei tudo de novo, com um novo nome e uma nova vida. Após a transição, adotei o nome Lynn Ann Conway e reconstrui minha carreira do zero — o que se tornou uma das histórias mais marcantes da ciência da computação moderna.
Trabalhei como programadora terceirizada e, aos poucos, minhas habilidades falaram mais alto. Em 1971, já era arquiteta de computadores na Memorex — e isso foi só o começo.
Meu grande salto veio quando fui convidada para trabalhar no Xerox PARC, um centro de pesquisa que reunia algumas das mentes mais brilhantes da época. Lá, desenvolvi as regras de projeto para chips VLSI, que revolucionaram a maneira como projetamos microeletrônica no mundo todo.
As regras de projeto para Chips VLSI
Pense em um chip como uma cidade muito, muito pequena. Um chip VLSI é como uma cidade minúscula, tão pequena que você precisa de microscópio para enxergar. Nessa cidade existem: ruas (os fios elétricos), casas e prédios (os transistores), cruzamentos (os pontos onde sinais se encontram) e habitantes que nunca param (os elétrons). Para que essa cidade funcione sem engarrafamentos, apagões ou explosões, ela precisa seguir regras claras.
Antes, cada chip era feito quase como artesanato — cada engenheiro criava do seu jeito, como se cada cidade tivesse suas próprias leis, e ninguém conseguia construir duas cidades iguais.
As “regras de projeto” VLSI são como o código de obras dessa cidade e foram uma revolução porque trouxeram um conjunto de normas padronizadas.
Pense como um manual universal dizendo: a rua não pode ser tão estreita, os prédios precisam de certa distância, os fios não podem se cruzar desse jeito, as casas têm tamanhos mínimos e máximos e onde pode ou não pode construir. Ou seja: elas dizem como desenhar um chip para garantir que ele funcione, seja fabricável e possa ser repetido milhares de vezes sem erro.
Antes, projetar um chip era como: “Desenhar uma cidade inteira tijolo por tijolo, sem mapa.” Depois das regras dela e do coautor Carver Mead, ficou assim:
“Usar blocos de Lego combináveis, onde cada pecinha já sabe exatamente como encaixar nas outras.”
Essa simplificação permitiu: mais engenheiros aprenderem a projetar chips, mais universidades ensinarem o processo, mais empresas criarem chips novos e o início da revolução de microeletrônicos modernos. Os computadores, celulares e consoles que usamos hoje existem porque ficou muito mais fácil inventar novos chips.
Mais tarde, escrevi um livro fundamental sobre o assunto e ainda tive a oportunidade de voltar ao MIT para ensinar o primeiro curso prático de VLSI.
Me tornei educadora da eletrônica de CHIPS
Em 1985, tornei-me professora de Engenharia Elétrica e Ciência da Computação na Universidade de Michigan e assumi o cargo de Decana Associada de Engenharia. Ensinar e inspirar jovens cientistas foi uma das maiores alegrias da minha vida.
Por muitos anos, mantive meu passado em segredo. Eu tinha medo de perder tudo de novo. Mas em 1999, um historiador descobriu minhas primeiras contribuições na IBM e minha trajetória como mulher trans veio a público.
Para minha surpresa, dessa vez o mundo estava mais preparado — e eu também. Desde então, espero que minha história ajude outras pessoas trans e jovens de todos os tipos a acreditarem em si mesmas, mesmo quando o caminho parecer difícil.
Nos últimos anos, tive a honra de receber reconhecimentos importantes, como títulos de doutora honoris causa e a eleição para a Academia Nacional de Engenharia, a maior distinção da área.
Hoje, estou aposentada e vivo tranquilamente na zona rural de Michigan com meu marido, Charles. E, olhando para trás, percebo que cada passo — até os mais dolorosos — me trouxe até aqui.
Se deixo uma mensagem para você, jovem que sonha em transformar o mundo, é esta:
não deixe que ninguém limite quem você pode ser,
nem o que você pode alcançar.
A inovação precisa de mentes diversas, criativas e autênticas
— como a sua.
INDO ALÉM DO BINÁRIO: CONCEITOS E CONEXÕES
A identificação de gênero reflete como a pessoa deseja expressar seu gênero, enquanto orientação sexual se refere ao interesse sexual ou romântico.
Na ciência, há poucas minorias de gênero e sexuais. Como cientista da computação e mulher trans, a Dra. Lynn Conway é uma defensora de maior inclusão na ciência.
Você sabia?
Um conceito chamado superposição na computação quântica refere-se a um valor que não é binário (ou seja, 1 ou 0), mas sim que o valor tem um valor ou identidade fluida, como o gênero.
Além do Binário: O conceito na Educação
Identidade de gênero é o sentido pessoal do próprio gênero. A identidade de gênero pode ser igual ou diferente do sexo. Cada cultura tem um conjunto de categorias de gênero (frequentemente mais de duas) e as pessoas podem se identificar com mais de um gênero ou nenhum gênero específico.
4º ao 6º ano: 9 a 12 anos
Como gênero é diferente do sexo?
6º ao 8º ano: 12 a 14 anos
Como gênero é diferente do sexo?
Como a identificação de gênero ou orientação sexual pode impactar a participação em STEM?
9º ano + 15 anos em diante
Como gênero é diferente do sexo?
Como a identificação de gênero ou orientação sexual pode impactar o recrutamento e a retenção de pessoas em STEM?
A Identidade de Gênero na BNCC
A BNCC não aborda diretamente “identidade de gênero” como tema explícito, porque esses termos foram removidos do documento final por pressões políticas (2017–2018).
Palavras como “identidade de gênero”, “orientação sexual” e até “gênero” foram retiradas da versão final da BNCC pelo MEC. A palavra “sexualidade” aparece apenas 3 vezes, sempre ligada ao aspecto biológico e reprodutivo, e não à diversidade humana. Essa remoção caracteriza um movimento de invisibilização das questões de gênero dentro do texto oficial da BNCC.
Entretanto, a BNCC indiretamente propõe discussões sobre identidades, direitos humanos, diversidade e respeito às diferenças — e é nesse espaço que muitos educadores trabalham o tema.
Por exemplo, a Competência Geral 9 – Empatia, diálogo e respeito às diversidades orienta que estudantes aprendam a: reconhecer diferentes identidades, culturas e modos de vida; agir com respeito e empatia; e combater preconceitos. Isso, na prática, permite discutir diversidade de gênero sob o guarda-chuva dos direitos humanos.
Nesse sentido, a BNCC marcou um retrocesso na educação da Sexualidade Humana, pois apresenta sexualidade e gênero somente na dimensão biológica, sobretudo nas Ciências da Natureza: junto de temas como reprodução e ISTs, e sem discussão social, cultural ou identitária. O documento temo uma posição de “invisibilidade”, especialmente em relação às identidades LGBT+.
Para Saber Mais
Visite o seu site para saber mais sobre Homens e Mulheres Trans, suas vidas e mais detalhes sobre a experiência de transição contada pela própria Lynn Conway: https://ai.eecs.umich.edu/people/conway/conway-Portuguese.html

