Imagem de capa: Rita Levi-Montalcini em seu laboratório.
Em 2026, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (Brasil) vai celebrar o tema Mulheres na Ciência. Vamos aproveitar para divulgar ações voltadas para Mulheres e Diversidade na Ciência.
Iniciaremos, com os posteres educativos do Programa Woman in STEM, Diversity in STEM, uma iniciativa canadense da Ingenium que visa engajar, promover e manter o interesse de jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).
Essas pessoas sempre fizeram contribuições importantes para as áreas de STEM ao longo da história, mas a desigualdade persiste, especialmente nos mais altos escalões da academia e da indústria.
Sua missão é contribuir para os esforços internacionais em prol da equidade em STEM, celebrando conquistas e defensores, e lançando luz sobre preconceitos persistentes, muitas vezes implícitos. Existem múltiplas barreiras estruturais e culturais que contribuem para essa situação, e as causas são complexas. A Ingenium reconhece isso e desenvolve diversas estratégias sustentáveis e de longo prazo para engajar jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas em STEM.
O objetivo da iniciativa é combater a sub-representação em STEM e contribuir para os esforços em prol da equidade nessas áreas.
Apresentamos aqui a série de pôsteres educativos criados pela Ingenium, com cada semana, um pôster da série, usado com permissão.
Rita Levi-Montalcini: O Crescimento de Neurônios
Impedida de continuar seus estudos em 1938 devido à sua herança judaica, Rita Levi Montalcini realizou pesquisas em laboratórios improvisados antes e durante a Segunda Guerra Mundial na Itália.
Ela continuou suas pesquisas sobre o desenvolvimento nervoso após a guerra, levando à descoberta do fator de crescimento nervoso.

Para Me Conhecer Melhor
Narrativa ficcional baseada na biografia e fatos reais da pesquisadora.
Meninas, aproximem-se. Quero lhes contar uma história — a minha. Talvez ela ajude vocês a acreditar no poder que cada uma de vocês tem dentro de si.
Eu nasci em 1909, na cidade de Turim, na Itália. Meus pais eram pessoas muito diferentes, mas igualmente importantes na minha vida.
Meu pai, Adamo Levi, era engenheiro e matemático. Ele acreditava profundamente no valor da disciplina e do estudo.
E minha mãe, Adelaide Montalcini, era artista, uma pintora talentosa, sensível e brilhante.
Foi com eles que aprendi duas coisas que me acompanharam para sempre:
a lógica e o rigor do pensamento científico, com meu pai;
a imaginação e a criatividade, com minha mãe.
Eu tinha uma irmã gêmea, a Paola, que se tornou uma grande artista plástica e que se destacou na pintura. Crescemos rodeadas de arte, livros e muitas conversas interessantes.
A Decisão de Ser Médica
Na minha época, meninas raramente estudavam tanto. E meu pai acreditava que o casamento devia ser o destino natural de uma mulher. Mas eu sentia um chamado forte para entender a mente, o corpo e a vida.
Aos 20 anos, tomei uma decisão que mudou tudo: ‘Quero ser médica.’
Estudei com tanta determinação que, em pouco tempo, entrei na Universidade de Turim para estudar medicina. Eu queria compreender como o sistema nervoso crescia e se organizava. Era fascinante.
Tempos Difíceis: O Nazismo e o Laboratório no Quarto
Mas o mundo estava mudando. Em 1938, o governo fascista de Mussolini criou leis raciais que proibiam pessoas judias, como eu, de trabalhar ou estudar.
Eu poderia ter desistido. Mas não desisti.
Transformei meu quarto em um laboratório improvisado. Com materiais simples — ovos de galinha, instrumentos caseiros e muita coragem — continuei estudando o desenvolvimento dos nervos.
Aprendi ali que o conhecimento pode florescer até mesmo nos lugares mais improváveis.”
Minhas pesquisas no Brasil
Cheguei ao Brasil no início da década de 1950, num momento decisivo da minha trajetória científica. Era 1951, e eu vinha dos Estados Unidos, onde havia iniciado, na Universidade Washington em St. Louis, uma investigação sistemática sobre o desenvolvimento do sistema nervoso. No entanto, algumas das respostas que eu buscava exigiam algo que nem sempre estava disponível nos grandes centros: tempo, abertura intelectual e um ambiente experimental fértil.
Foi assim que cheguei ao Rio de Janeiro, convidada a trabalhar no Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da então Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
O Instituto de Biofísica não era apenas um espaço físico. Era um projeto científico ousado, liderado por Carlos Chagas Filho, que acreditava na ciência básica como fundamento do desenvolvimento humano e social. Ali encontrei laboratórios preparados para cultura de tecidos, algo ainda raro fora da Europa e dos Estados Unidos naquele período, e uma comunidade científica aberta à colaboração internacional.
Durante minha permanência no Brasil, concentrei-me em experimentos de culturas celulares in vitro, estudando o crescimento e a sobrevivência de neurônios fora do organismo. Meu interesse era compreender se o desenvolvimento nervoso dependia apenas de um programa interno das células ou se havia fatores externos, produzidos por outros tecidos, capazes de estimular esse crescimento.
No Instituto de Biofísica, em 1951, obtive evidências experimentais decisivas de que certas substâncias tinham efeito direto sobre a expansão e a diferenciação das fibras nervosas. Esses resultados reforçaram algo que eu já suspeitava desde meus primeiros experimentos com embriões de galinha, realizados anos antes, em condições muito mais precárias.
Foi no Rio de Janeiro que consegui confirmar, de forma clara, que o crescimento neuronal não era um fenômeno espontâneo, mas dependente de sinais bioquímicos específicos.

Digitalização de original do Prof. Cezar Antonio Elias (1926-2018).
Nunca considerei minha passagem pelo Brasil como periférica em relação ao resto de minha obra. Ao contrário, sem aqueles experimentos realizados no Instituto de Biofísica, o caminho até o NGF teria sido mais longo. A ciência não avança em linha reta, e naquele momento o Brasil ofereceu exatamente o que eu precisava: liberdade para testar ideias, diálogo interdisciplinar e respeito pelo rigor experimental.
Também me marcou profundamente a presença de mulheres cientistas no Instituto, muitas delas vindas da Europa em razão das guerras e das perseguições políticas. Compartilhávamos não apenas técnicas laboratoriais, mas histórias de deslocamento, resistência e reconstrução intelectual. Em especial, a Profa. Hertha Meyer (1902-1990), uma pioneira na introdução de cultura de células e da microscopia eletrônica no Brasil. Hertha Meyer foi uma das construtoras do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF).

Quando deixei o Brasil, ao final daquele período, levei comigo dados, hipóteses e perguntas que continuariam a me acompanhar por décadas. Mas levei também a certeza de que a ciência de excelência não pertence a um único país. Ela surge onde há compromisso, imaginação e coragem — qualidades que encontrei no Rio de Janeiro, na UFRJ.
Anos mais tarde, quando recebi o Prêmio Nobel, muitos se lembraram apenas dos laboratórios norte-americanos ou europeus. Eu nunca me esqueci do Brasil. Porque foi ali, em 1951, no Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, que uma parte essencial da minha compreensão sobre o crescimento nervoso tomou forma definitiva.
Você pode conhecer e marcar sua visita ao Espaço Memorial Carlos Chagas Filho em https://emccf.biof.ufrj.br/.
A Grande Descoberta: O Fator de Crescimento Nervoso (NGF)
Depois da guerra, fui convidada para trabalhar nos Estados Unidos. E, em 1947, cheguei aos Estados Unidos, na Universidade Washington, em St. Louis, a convite do neuro-embriologista Viktor Hamburger, como pesquisadora associada.
Foi na Universidade Washington que desenvolvi a maior parte de minha pesquisa experimental, incluindo:
Estudos com embriões de galinha.
Experimentos com tumores transplantados em camundongos.
Demonstração de que o crescimento neuronal dependia de substâncias solúveis específicas
E foi lá que descobri algo extraordinário: o Fator de Crescimento Nervoso (NGF) em cooperação direta com o bioquímico Stanley Cohen, que permitiu o isolar e caracterizar a molécula do NGF.
Mas o que é o NGF?
Nosso corpo é cheio de neurônios — as células que transmitem mensagens.
Mas como os neurônios sabem para onde crescer?
Como eles se conectam uns aos outros quando estamos nos formando dentro da barriga da nossa mãe?
Descobri que existe uma substância, uma espécie de mensageira química, que diz aos neurônios:
‘Cresçam por aqui! Formem conexões! Desenvolvam-se!’
Era como encontrar o mapa desconhecido que orienta o crescimento do sistema nervoso. Essa descoberta ajudou cientistas do mundo inteiro a entender doenças neurológicas e abrir caminhos para novos tratamentos.
Imagine que dentro do nosso corpo os neurônios (as células que formam o cérebro e os nervos) são como fios de uma rede elétrica. Para que essa rede funcione bem, esses fios precisam: crescer corretamente, se manter saudáveis e se conectar uns aos outros.
Ele é importante no desenvolvimento do cérebro, desde quando somos bebês; na cura de nervos machucados, ajudando na recuperação e no funcionamento da memória e da aprendizagem, porque ajuda os neurônios a se manter fortes. Pense assim: Neurônios são como plantinhas e o NGF a água e nutrientes que eles precisam. Se você deixa de regar a planta, ela enfraquece. Se ela receber a nutrição certa, crescerá forte e bonita. O NGF faz isso com os neurônios.
Estudar o NGF ajuda os cientistas a entender: doenças como Alzheimer e Parkinson; como reparar danos nos nervos e como o cérebro aprende e se adapta.
Reconhecimento e Prêmios
Em 1986, recebi o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina pela descoberta do NGF.
Sempre acreditei que o conhecimento não deve envelhecer dentro de nós. Por isso, continuei trabalhando até os 100 anos. Ciência era minha forma de viver.
Quero que vocês lembrem disso:
Eu não era a mais forte.
Nem a mais rica.
Nem a mais bem-vinda nos laboratórios.
Mas tinha curiosidade, coragem e vontade de aprender.
E vocês também têm.
Não deixem ninguém dizer o que vocês podem ou não podem ser.
Perguntem, pesquisem, insistam.
O cérebro humano de vocês é poderoso demais para ficar guardado em uma caixa.

