Imagem de capa: Close em tocador de berimbau, com foco nos componentes do berimbau. Imagem gerada por IA Microsoft Copilot, 2026.
Eu sou o Berimbau, mas esse não foi sempre o meu nome.
Muito antes de ouvir rodas de capoeira ecoando pelas ruas do Brasil, eu era apenas um arco simples, nascido nas vastas terras africanas, especialmente nas regiões onde vivem povos de língua banta — povos de Angola, Congo e Moçambique.
Minhas raízes africanas
Lá na África, eu era conhecido de muitos nomes:
mbirimbau, do quimbundo que designa um arco musical com corda e ressonador, instrumento tradicional em várias regiões de Angola.
mbulumbumba ou m’bolumbumba, termo de língua banta, usado em Angola para designar um arco musical semelhante ao berimbau. O arco que ressoa.
hungu, termo de uso tradicional em Angola, registrado entre diversos povos bantos.
Eu fazia parte das festas, dos rituais, da vida cotidiana.
Meu corpo era simples, mas cheio de alma: um arco de madeira flexível e uma corda esticada.
Me tocavam para dançar, contar histórias, celebrar casamentos e até chamar caçadores para a mata.
Eu ainda sou um arco musical, um dos instrumentos mais antigos da humanidade.
Os povos bantos conheciam bem meus segredos.
Sabiam que quando uma corda vibra, nasce um som.
E que, se você aproxima uma cabaça — aquela cuia seca e oca — a vibração muda, cresce, se ilumina.
Assim, eu aprendi a falar com o mundo.
A travessia para o Brasil
Mas minha história ganhou outro tom quando milhões de africanos foram arrancados de suas terras e trazidos como escravizados para o Brasil.
Foi uma travessia dura demais. Muitas memórias se perderam no mar.
Mas eu continuei vivo, guardado na lembrança, nas mãos e no coração dos que sobreviveram.
Quando cheguei ao Brasil, me chamaram berimbau, mas meu espírito continuava o mesmo.
Eu me tornei companheiro dos capoeiristas — homens, mulheres e crianças que ousavam resistir dançando, girando e lutando.
Em meio ao sofrimento, eu virava ponte para a liberdade, ritmo para o corpo, força para a comunidade.
Meu corpo: as partes que me constroem
Deixa eu me apresentar melhor:
Verga
É meu corpo principal: um arco de madeira flexível. No Brasil, normalmente sou feito de biriba (Eschweilera ovata).

A madeira da biriba é:
- muito resistente, mas ao mesmo tempo flexível, permitindo entortar sem quebrar.
- leve, o que facilita o manuseio do instrumento.
- durável, mantendo o arco firme por muitos anos.
Sem ela, eu não fico firme nem produzo a tensão necessária para vibrar.
Arame
É a minha corda sonora. No passado, era tripa de animal ou cipó. Hoje, geralmente é arame de pneu ou de freio de bicicleta — resistente e vibrante.
Quando você me toca aqui, nasce o som.
Cabaça
Minha caixa de ressonância. É ela que amplifica minha voz.
Se me encosto no corpo da pessoa que toca, o som fica mais fechado.
Se me afasto, ele abre.
É magia? Não — é acústica: o ar dentro da cabaça vibra junto comigo.
Sons fechados e sons abertos
O meu som é considerado fechado quando:
- a cabaça está encostada no corpo do músico (geralmente no abdômen),
- menos ar vibra dentro da cabaça,
- o som sai com menos volume,
- o timbre fica mais abafado e com menos brilho.
É como tapar parcialmente a boca de uma caixa acústica.
Isso faz meu som ser mais discreto, menor, abafado.
O meu som é considerado aberto quando:
- a cabaça está afastada do corpo do músico,
- mais ar vibra livremente dentro da cabaça,
- o som tem mais volume,
- o timbre fica mais forte, mais “solto”, mais cheio.
É como destampar uma caixa oca ou abrir a boca de um megafone.
Isso faz meu som ser mais alto, cheio e ressonante.
A cabaça é uma caixa de ressonância.
Quando ela está encostada no corpo, parte do ar interno não vibra completamente e o som perde intensidade.
Quando está afastada, a vibração do ar é máxima e o som ganha volume e brilho.
Dobrão ou Pedra
É o disco metálico (ou a pequena pedra lisa) que encosta na corda.
Quando o dobrão aproxima: o som fica mais agudo.
Quando o dobrão se afasta: o som fica mais grave.
É assim que produzo minhas notas principais:
- grave (corda solta),
- médio (com dobrão encostando suave),
- agudo (com pressão firme).
Baqueta
O bastão fino que bate na corda e me faz falar.
Cada toque é uma palavra. Cada batida, um convite para o corpo se mover.
Caxixi
Meu parceiro inseparável.
Um chocalho pequeno, trançado, que adiciona brilho ao meu ritmo. Sem ele, minha voz fica incompleta.
A CIÊNCIA DENTRO DE MIM
Mesmo sendo tão antigo, funciono segundo 4 princípios fundamentais:
- Vibração: quando a corda oscila (vibra), produz ondas sonoras.
- Frequência: quanto mais tensionada a corda, mais agudo é o som.
- Ressonância: a cabaça amplifica o som, como fazem alguns instrumentos de orquestra.
- Modulação: o dobrão altera o comprimento vibrante da corda, mudando a nota.
Sou simples, mas cheio de ciência.
Berimbau Gunga, Médio e Viola
O Berimbau Gunga (ou berra‑boi) é o berimbau mais grave e mais importante da roda. Ele “manda” na capoeira. Possui: cabaça grande, som grave e encorpado, arame geralmente mais frouxo, o tocador costuma ser o mestre ou alguém de grande responsabilidade e possui pouca variação rítmica.
Na roda, define o toque (Angola, São Bento Pequeno, São Bento Grande etc.), define o ritmo, a velocidade e até o tipo de jogo e serve como referência para os outros berimbaus, pandeiros, canto e jogadores.
Diz-se que o gunga é a voz do chão e da ancestralidade.
O Berimbau Médio é o berimbau intermediário, tanto em tamanho quanto em afinação. Possui: cabaça média, o som nem tão grave quanto o gunga, nem tão agudo quanto a viola. Sua afinação é equilibrada e precisa de um tocador geralmente experiente.
Na roda, sustenta o ritmo junto com o gunga, responde ao gunga, faz pequenas variações sem quebrar o toque principal e “amarra” o conjunto musical.
O médio é uma ponte sonora entre o comando do gunga e a liberdade da viola.
O Berimbau Viola (ou violinha) é o berimbau mais agudo, mais livre e mais criativo. Possui: cabaça pequena, som agudo, arame mais esticado, exige grande domínio técnico e um tocador muito atento à roda.
Na roda, faz variações, floreios e improvisos; dialoga com o jogo dos capoeiristas; provoca mudanças de energia e “conversa” musicalmente com o canto e com os movimentos.
A viola não manda, mas enfeita, comenta e instiga o jogo.
MEU ENCONTRO COM A CAPOEIRA
No Brasil, encontrei meu caminho. Passei a marcar os ritmos da capoeira.

A Capoeira de Angola é considerada a forma mais antiga da capoeira, mais próxima das práticas afro‑brasileiras desenvolvidas durante a escravidão e no pós‑abolição. Ela foi organizada e preservada no século XX por Mestre Pastinha (Vicente Ferreira Pastinha), em Salvador. Ela é mais lenta, cheia de mandinga, onde a minha voz soa grave e profundo. Normalmente com os três berimbaus: gunga, médio e viola.
“Tudo o que eu penso da Capoeira, um dia escrevi naquele quadro que está na porta da Academia. Em cima, só estas três palavras: Angola, capoeira, mãe.
E embaixo, o pensamento: Mandinga de escravo em ânsia de liberdade, seu princípio não tem método e seu fim é inconcebível ao mais sábio capoeirista.“ Mestre Pastinha.


A Capoeira Regional foi criada por Mestre Bimba (Manoel dos Reis Machado), também na Bahia, a partir da década de 1930. Bimba sistematizou a capoeira para retirá‑la da marginalização, valorizá‑la como luta, método educativo e prática reconhecida pelo Estado. Ela é mais rápida, onde a minha voz ganhava velocidade e energia. Normalmente, um berimbau e 2 pandeiros.
No centro da roda, eu não era só música — era comando.
Eu digo quando começa, quando termina, quando o jogo muda.
Eu falo com quem joga.
QUANDO ME PROIBIRAM E PERSEGUIRAM: A LONGA NOITE DA CAPOEIRA
Houve um tempo em que eu não podia cantar livremente.
Minha voz, que nasceu da resistência africana, teve que aprender a sussurrar.
E essa parte da minha história atravessa décadas de medo, repressão e coragem.

Depois da Abolição: liberdade que não veio junto com a lei
Quando a escravidão acabou legalmente em 1888, muitos dos meus companheiros — homens e mulheres negros recém-libertos — foram jogados nas ruas sem terra, sem direitos e sem proteção.
As rodas de capoeira se tornaram um espaço de expressão, defesa e afirmação cultural, o que assustou a elite brasileira da época.
Eles viam a capoeira não como arte, mas como ameaça.
Diziam que era coisa de “vadios”, de “bandidos”, de negros que precisavam ser contidos. E assim, começaram a me perseguir também.
1890: o Código Penal que tentou me calar
Dois anos após a abolição, em 11 de outubro de 1890, nasceu o Código Penal da Primeira República, e nele havia um artigo inteiro só para proibir a capoeira — e tudo que se parecia com ela.
Era o Artigo 402, que criminalizava qualquer um que “nas ruas e praças públicas” praticasse a capoeiragem. As penas iam de 2 a 6 meses de prisão, e eram dobradas se o capoeirista fosse considerado líder de uma “banda ou malta”.
A repressão incluía prisões, castigos físicos e até deportações, como para a ilha de Fernando de Noronha.
Nesse período, quem me tocava arriscava a liberdade.
Quem me escutava arriscava o corpo.
A perseguição nas ruas: rodas que viravam crime
Entre 1889 e 1937, qualquer roda onde eu começava a soar podia virar motivo de batida policial.
As autoridades tinham medo do que eu representava: união, estratégia, comunicação entre corpos.
Muitas vezes, quando a polícia se aproximava, os capoeiristas escondiam rápido meu arco atrás de barris, de portas, de moitas; às vezes me enterravam na areia por algumas horas. Eu perdi a conta das noites em que passei escondido, esperando ser resgatado.
Alguns até fingiam que era só samba. E era bonito ver como transformavam golpes em passos, esquivas em gingados de festa, tudo para confundir os olhos dos guardas. Eu também mudava: minha voz ficava mais grave, mais discreta, mais “inocente”. Era uma maneira de sobreviver.
A construção da “ameaça”
As autoridades justificavam a perseguição dizendo que a capoeira provocava “tumultos” e “desordem”, exatamente como escrito no Código Penal. A prática era associada ao crime, mesmo quando era apenas defesa e cultura.
A repressão era especialmente violenta nas cidades do Rio de Janeiro e de Salvador, onde capoeiras foram presos, torturados e proibidos de circular.
Mas mesmo assim, eu seguia vibrando.
RESISTÊNCIA: MEU SOM NUNCA DEIXOU DE EXISTIR
Apesar da caça aos capoeiristas, a tradição não morreu.
Sobreviveu em terreiros, becos, quintais, encontros secretos.
Os mestres me ensinavam a falar baixinho, mas nunca a ficar calado.
Foi só na década de 1930, no governo de Getúlio Vargas, que a maré começou a mudar. Vargas assistiu a uma apresentação e ficou encantado. A capoeira passou lentamente a ser vista como símbolo nacional, não mais como crime. Em 1937, a perseguição formal chegou ao fim.
Mestres como Mestre Bimba e Mestre Pastinha foram fundamentais.
Bimba ao criar a primeira academia oficial de capoeira regional em 1932 e sistematizar o ensino.
Pastinha ao defender a capoeira angola, mantendo sua ancestralidade viva.
Da sombra à luz

Hoje, eu posso cantar alto nas rodas, nas escolas, nas praças, nos projetos sociais, quilombos, centros culturais, universidades e rodas pelo mundo.
Mas nunca esqueço o tempo em que fui proibido, escondido, perseguido.
A minha madeira carrega cicatrizes — não só de cortes e dobras, mas de memórias.
Eu ensino história, ciência, ritmo, ancestralidade e respeito.
Eu sou a memória viva de um povo que atravessou o oceano e manteve acesa sua arte e sua força.
Sou o berimbau.
Sou arco, sou som, sou resistência, sou voz.
Sou África e Brasil.
E toda vez que alguém me toca, eu conto essa história de novo.

