Estivemos frente a frente com a pesquisadora Adriana Valente, bióloga e professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ).
Adriana é doutora em Zoologia, já atuou em diversas instituições, participando de eventos e colaborando com seu conhecimento acadêmico em ecologia, destacando seu envolvimento também no magistério e como orientadora.
Nesta entrevista, vamos conhecer mais sobre a sua relação com os mais cascudos da natureza: os artrópodes!

O ECV agradece imensamente à professora pelo cuidado e entusiasmo que foi compartilhado conosco sobre esses bichinhos tão intrigantes.
Quando ingressou no curso de biologia, com o quê você se imaginava trabalhando? Por quê?
Entrei na biologia em 2000, e a maior parte dos alunos entravam querendo fazer genética. Eu não fui diferente. Ainda tinha muito impacto a clonagem da ovelha Dolly e eu entrei com a
expectativa de fazer genética.
Como os artrópodes chegaram na sua vida acadêmica? O que te motivou a explorar esse mundo?
A minha primeira paixão na biologia foi a disciplina Zoologia III, que abordava os artrópodes, que trabalho desde o 3° período da faculdade. Trabalhei com uma vespa, a Evania appendigaster, parasitóide de ooteca de baratas. Depois, entrei no Laboratório Integrado de Zooplâncton e Ictioplâncton (LIZI) da UFRJ, que fiquei de 2003 a 2017, trabalhando com copépodes. Durante esse tempo, fiz licenciatura, bacharelado em Ecologia, mestrado e doutorado.

Você pode falar um pouco dos artrópodes que você estuda?
Atualmente, ainda faço trabalhos com o pessoal do LIZI, com zooplâncton e com os copépodes. Ao longo do tempo, transitei um pouco pelo ambiente aquático. Meu foco principal foi o ambiente marinho, mas meu mestrado e doutorado foi com estuários, [e também] me aventurei um pouco na água doce. Os copépodes são a base da teia trófica marinha, representando um elo fundamental entre os produtores e o restante da cadeia trófica. […]
Atualmente, trabalho também com os besouros rola-bosta, bichos extremamente interessantes. Contextualizando um pouco: eu entrei no IFRJ/campus Maracanã em 2018, e o Maron Galliez (professor de zoologia e ecologia do IFRJ), que toca a reintrodução das antas no Rio de Janeiro, na Reserva Ecológica de Guapiaçu [REGUA], estava avaliando os efeitos dessa reintrodução.


© REGUA
Os besouros rola-bosta têm uma relação muito próxima com os mamíferos, porque eles utilizam as fezes desses animais para nidificação e alimentação, desempenhando vários papéis importantes para o ecossistema. Então, era importante também ver os ganhos ecossistêmicos que não eram relacionados diretamente à reintrodução da anta. (…) Assim, comecei em 2020 a trabalhar como os besouros desempenham essa função dentro da reintrodução da anta.

Curiosidade: Dentro do prato erguido tem uma isca pra atrair os besouros, e no buraco tem um prato de plástico de bolo de confeitaria pros bichos não conseguirem escalar!
A cobertura serve pra conter chuva e vento que possam danificar a armadilha.
Você acha que estudar artrópodes mudou sua visão de mundo? Se sim, como?
Criança tem por natureza uma relação bem próxima com os insetos, com muito interesse. Mas, quando vai crescendo, ela tende a prestar mais atenção em coisas maiores, e isso inclui as espécies [mais] carismáticas, que são animais maiores.
As espécies tropicais de copépodes que são mais costeiras são bem pequenas, com cerca de 1 mm. Em relação aos besouros, eles apresentam um corpo bem maior do que isso, mas não passam de poucos centímetros. [Mas] são animais que têm papéis para os ecossistemas que vivem extremamente importantes. Então, acho que [aprendi que] tamanho não é documento.

Cr: CC BY-SA 4.0 /Wikipedia

Cr: Tissiani et al, 2017
Qual peculiaridade dos artrópodes mais te fascina?
A diversidade deles, diversidade de tudo. As estratégias ecológicas, a capacidade de ocupar todos os ambientes que você pensar, a diversidade de formas…

Cr: TrueCreatives (Canva)

Cr: Zeeshan Mirza (Canva)

Cr: Petrescu’s (Canva)

Cr: Maakoora (Canva)
Se você fosse eleger, qual seria seu artrópode favorito? Por quê?
Mesmo tendo relação próxima com os crustáceos e com os hexápodes, especificamente com copépodes e os insetos, e gostar obviamente bastante deles — tanto que a minha vida profissional e acadêmica está absolutamente relacionada a eles — o meu artrópode favorito é um aracnídeo. Tenho bastante interesse nos aracnídeos em geral. Mas o meu grupo favorito é desconhecido pelas pessoas:
Amblypygi. Ele é um bicho que desde a graduação desperta o meu interesse, uma paixão especial. A gente tem um indivíduo só em laboratório, e eu o acho extremamente diferente. Pequeno, mas ameaçador. E ao mesmo tempo, adorável. Então, ele é um bicho que me fascina, mas não conheço ninguém que estude o grupo […]
Quais são suas melhores memórias como pesquisadora?
São várias… Todo o processo de aprendizado e de amadurecimento ao longo da minha formação, e todas as experiências que eu vivi com os diferentes animais são extremamente caras para mim.
Mas a minha experiência como orientadora já é sobre um outro ponto de vista. Ver o desenvolvimento dos alunos, o despertar do interesse, o crescimento, uma certa independência, né? […] O que acontece muito com a gente aqui no Instituto é que as disciplinas de zoologia e de ecologia estão lá no primeiro e segundo períodos, então os alunos começam cedo na faculdade a estagiar, porque logo depois que fazem a disciplina eles se inscrevem para fazer estágio. E aí, a gente vai acompanhando esses alunos desde o início. Ver esse amadurecimento, esse crescimento […], do aluno entender todo o processo de geração de conhecimento e se apaixonar por ele, começar a ver o mundo de uma forma diferente e pensar no que ele vai fazer a partir dali é extraordinário.
Todas as experiências enquanto pesquisadora em campo — os perrengues também, porque eu já passei bastante perrengue em campo, na verdade.



Existe uma visão negativa sobre os artrópodes na população. Como você contorna essa percepção das pessoas quando está apresentando seu trabalho para o público geral?
Acho que muito está relacionado à existência de insetos praga, insetos vetores de doenças, então as pessoas têm bastante medo desses insetos e os relacionam a questões negativas. As aranhas também são animais que as pessoas têm muito medo. O foco acaba sendo [nos] animais que são questões de saúde pública. […] A diversidade não se restringe a esses animais pragas ou vetores de doenças. Existe uma diversidade muito maior, e esses animais exercem papéis ecológicos muito importantes na natureza.
Por exemplo, existe turismo para observação de libélulas, borboletas e mariposas, [que] têm espécies super bonitas e interessantes, e que atraem muitos amantes, que não são pesquisadores, para observação desses animais. Isso mobiliza bastante dinheiro. A migração das borboletas monarca, que acontece do Canadá e norte dos Estados Unidos para o México, atrai uma quantidade enorme de pessoas para ver a chegada desses animais.
Nosso mundo está em constante mudança. Considerando as mudanças climáticas, que papel/situação você espera para o futuro dos artrópodes na Terra?
A gente está atuando em várias frentes de mudança, né? O homem está interferindo de uma forma extremamente importante – com a tecnologia avançando pelo século XXI – e a gente ainda sofre vários reveses de compreensão sobre esse processo de mudança. Na verdade, de aceitação de que essas mudanças estão ocorrendo e de que a gente tem um papel importante nelas.
O que se espera é o que já está acontecendo em ritmo acelerado: extinção de espécies, que sequer foram descritas ainda, aumento da extinção de predadores de insetos praga, de perda de papéis ecológicos importantes pro ambiente. Pensando em insetos polinizadores: a polinização é fundamental! Quando você perde uma espécie, você potencialmente perde outras espécies associadas, que interagiam com ela e que dependiam dessa interação.
Para ser mais específica: a anta estava extinta no Rio de Janeiro desde o início do século XX, mais de cem anos extinta. As espécies que estabeleciam interação com a anta foram afetadas também com a extinção dela. Aí, em 2017 [a anta] foi reintroduzida na REGUA, e começamos a fazer estudos. No primeiro estudo sobre os besouros rola-bosta, lá na REGUA, com as coletas terminadas em 2020, foram encontradas 12 espécies utilizando as fezes de anta.
Dois anos depois, em 2022, a gente já tinha o dobro de espécies interagindo com as antas: 24 espécies. E algumas dessas são exclusivas e interagem só com as fezes de anta. Os vegetais que eram consumidos pelas antas, também foram afetados, porque elas servem como dispersoras primárias de sementes.
Por fim, gostaria de deixar algum recado para os que estão lendo a entrevista agora?
Existe um mundo muito grande lá fora, para além do que a gente consegue ver do nosso quarto. Então, é importante ficarmos atentos às mudanças que estão acontecendo no ambiente, que impactam todas as espécies, incluindo a gente, e que estão cada vez mais aceleradas.
É importante que a gente esteja ligado e cobre quem a gente elegeu para nos representar, para que elas ajam de acordo com a plataforma que as levou a estarem onde estão hoje, como representantes do povo no final das contas. Essa mobilização é muito importante. E [também] a busca por informação, porque tem muita coisa na rede, mas tem muita desinformação ativa, com intenção. Então, a gente consegue ver e sentir essas mudanças.

E aí fica o convite: a gente no IFRJ está de portas abertas! Temos eventos aqui para toda a comunidade.

