Mulheres STEM: Laurie Rousseau-Nepton

Imagem de capa: Telescópio Canadá-França-Havaí no topo do Mauna Kea, Havaí, EUA, olhando para noroeste em direção a Maui, Gordon W Myers, 2011, Wikipedia. Licença CC-BY-SA-4.0 .

Em 2026, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (Brasil) vai celebrar o tema Mulheres na Ciência. Vamos aproveitar para divulgar ações voltadas para Mulheres e Diversidade na Ciência.

Iniciaremos, com os posteres educativos do Programa Woman in STEM, Diversity in STEM, uma iniciativa canadense da Ingenium que visa engajar, promover e manter o interesse de jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).

Essas pessoas sempre fizeram contribuições importantes para as áreas de STEM ao longo da história, mas a desigualdade persiste, especialmente nos mais altos escalões da academia e da indústria.

Sua missão é contribuir para os esforços internacionais em prol da equidade em STEM, celebrando conquistas e defensores, e lançando luz sobre preconceitos persistentes, muitas vezes implícitos. Existem múltiplas barreiras estruturais e culturais que contribuem para essa situação, e as causas são complexas. A Ingenium reconhece isso e desenvolve diversas estratégias sustentáveis e de longo prazo para engajar jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas em STEM.

O objetivo da iniciativa é combater a sub-representação em STEM e contribuir para os esforços em prol da equidade nessas áreas.

Apresentamos aqui a série de pôsteres educativos criados pela Ingenium, com cada semana, um pôster da série, usado com permissão.

Laurie Rousseau-Nepton

A primeira mulher indígena no Canadá a obter um doutorado em astrofísica, Rousseau-Nepton atribui à sua criação Innu o despertar sua curiosidade científica e suas aguçadas habilidades de observação.

Sua pesquisa foca nos ciclos de vida das estrelas.

Pôster Ingenium

Para me Conhecer Melhor

Narrativa ficcional baseada em fatos reais e a biografia de Laurie Rousseau-Nepton.

Olá, meu nome é Laurie Rousseau‑Nepton, e hoje eu quero contar a vocês a minha história. Não como uma aula, mas como uma conversa de coração para coração. Porque, antes de ser cientista, eu fui uma menina curiosa como vocês.

Eu nasci na provícia do Quebec, no Canadá, em uma comunidade indígena Innu em Mashteuiatsh, na região de Saguenay–Lac‑Saint‑Jean, um povo que vive há milhares de anos em harmonia com a natureza.

Em minha infância, vivo um período na reserva de Wendake – uma comunidade indígena urbana situada dentro da área metropolitana da cidade de Québec, totalmente cercada por bairros da própria cidade, especialmente o distrito de La Haute‑Saint‑Charles.

Wendake é o território da Nação Hurona‑Wendat, uma Primeira Nação indígena do Canadá. É uma das poucas comunidades indígenas no Canadá localizadas dentro de uma grande cidade.

A cosmopercepção Innu concebe o mundo como uma rede viva de relações entre humanos, animais, espíritos, territórios e ancestralidades, na qual não há separação entre natureza, sociedade e espiritualidade.

A terra (assí), especialmente o Nutshimit (o interior do território), não é um recurso, mas um ser relacional e pedagógico, uma pessoa não humana, onde se aprende a viver corretamente.

Rangifer tarandus ssp. caribou. © Ryan Sealy. Yokun, Canadá, 2024. Acervo iNaturalist. Licença CC-BY-NC-4.0.

Animais, como o caribu (Rangifer tarandus), possuem espírito, intenção e agência. Meu povo o chama de alipu (ou atiku) na língua mi’kmaq, que significa algo como “aquele que raspa/escava a neve”, pois ele tem o hábito de usar as patas para remover a neve e alcançar líquens, seu principal alimento no inverno.

E a caça é entendida como um ato de reciprocidade ética, regulado por respeito, rituais e moderação.

Rangifer tarandus ssp. caribou. © rob56vt. Canadá, 2008. Acervo iNaturalist. Licença CC-BY-NC-4.0.

Nossos parentes não humanos

O conhecimento é transmitido pela experiência, pela oralidade e pela escuta dos mais velhos, e o bem‑viver (minu‑shin) emerge do equilíbrio entre pessoa, comunidade e ambiente, orientando uma forma de existência baseada na interdependência, na responsabilidade coletiva e na continuidade da vida.

Por isso, desde pequena, aprendi que a Terra, o céu, os rios e as estrelas são nossos parentes. Para o meu povo, olhar o céu sempre foi uma forma de aprender, de contar histórias e de entender nosso lugar no mundo. Assim, quando eu era criança, eu gostava de observar o céu à noite. Não sabia o nome das estrelas, nem o que eram galáxias, mas sentia que havia algo muito maior ali, algo que me chamava.

Meus pais eram ligados à engenharia civil, e tiveram uma influência enorme na minha vida.

Eles me ensinaram duas coisas muito importantes:

Nunca esquecer quem eu sou e de onde venho.

Nunca achar que eu sou pequena demais para aprender algo grande.

Mesmo quando a escola não parecia feita para meninas indígenas como eu, meus pais sempre me incentivaram a continuar estudando. Eles diziam:

“Seu saber indígena é uma força, não um problema.”

Viver entre dois mundos

Ao crescer, vivi entre dois mundos:

  • o mundo do conhecimento ancestral indígena, passado por histórias e vivências
  • e o mundo da ciência moderna, com livros, fórmulas e telescópios

No começo, foi difícil. Muitas vezes, eu era a única menina indígena na sala. Às vezes, duvidavam de mim. Às vezes, eu mesma duvidava.

Mas aprendi algo essencial: não preciso escolher entre ser quem sou e ser cientista. Posso ser os dois.

Decidi estudar física e astronomia, áreas que observam o céu, as estrelas e o universo. Estudei muito, enfrentei desafios e segui adiante, mesmo quando parecia difícil demais.

Com o tempo, me tornei Astrofísica, uma cientista que estuda estrelas, galáxias e como o universo funciona.

Eu estudo muito as galáxias, que são grandes conjuntos de estrelas, como a nossa Via Láctea. E uma das minhas contribuições mais importantes foi ajudar a medir a distância das galáxias. Isso significa descobrir o quão longe elas estão da gente. E por que isso é importante?

Porque quando sabemos a distância, conseguimos entender:

  • como o universo está crescendo;
  • como as galáxias nascem e mudam;
  • e como o tempo funciona no espaço.

É como olhar uma foto muito antiga do universo e tentar entender sua história.

Meu doutorado foi um estudo das regiões de formação de estrelas em galáxias espirais usando o instrumento SpIOMM pois eu quero entender onde e como nascem as estrelas dentro das galáxias.

O SpIOMM (sigla para Spectromètre Imageur de l’Observatoire du Mont‑Mégantic) é uma câmera científica muito especial acoplada a um telescópio, capaz de: tirar uma imagem e, ao mesmo tempo, descobrir de que essa luz é feita. Ele fica no Observatório do Mont‑Mégantic, no Quebec, e foi desenvolvido pela Universidade Laval em parceria com instituições científicas canadenses.

Imagine assim: uma foto comum mostra cores e formas e um arco‑íris mostra do que a luz é feita. O SpIOMM faz as duas coisas juntas. Ele cria uma espécie de “foto arco‑íris” do céu, onde cada pedacinho da imagem tem sua própria informação de luz.

Uma imagem do SpIOMM deve ser lida como um mapa físico do Universo, onde cada cor representa movimento, química ou a energia — e não sua aparência. São diferentes das imagens geradas pelos telescópios espaciais Hubble e Webb, por exemplo.

Ciência Moderna e Saberes Indígenas

O que torna meu trabalho especial é que ele une ciência moderna com saberes indígenas. Para mim:

a astronomia não é só números, é também respeito, escuta e conexão.

Aprendi com meu povo que o conhecimento deve servir para cuidar da vida, não para dominar a natureza.

Nem tudo foi fácil. Enfrentei preconceito, solidão e dúvidas internas.

Mas cada desafio me ensinou algo: o mundo precisa de mais vozes diferentes na ciência.

Ser indígena me ensinou que o conhecimento serve para cuidar da vida. Na ciência, eu levo isso comigo.

Estudar as estrelas também é uma forma de contar histórias, de honrar minhas raízes e de abrir caminho para que outras meninas indígenas sonhem alto.

Eu não escrevi um livro sozinha sobre o céu do meu povo, porque esse conhecimento não é meu sozinho. Mas eu conto essas histórias e ajudo a registrá‑las em filmes, palestras e aulas como um princípio educativo de “emergência” para que elas não se percam e para que caminhem com a ciência.

Nesse sentido, em 2023, participei do documentário pela National Film Board of Canada em 5 episódios, chamado de a Estrela do Norte (Etoile du Nord) disponível na Prime Video e uma apresentação exclusiva sobre A História das Aves de Verão e a Astronomia (La Legende des Oiseaux dete et l´Astronomie), disponível online.

Escrevi um artigo onde falo das conexões entre a Astronomia e os conhecimentos de meus ancestrais, chamado “Nós Viemos de Estrelas e Retornamos às Estrelas” que vocês podem ler no site da Canadian Geographic.

Para finalizar, quero que vocês saibam:

Vocês podem gostar de ciência,

Vocês podem amar sua cultura.

Vocês podem fazer perguntas difíceis,

Vocês podem ocupar qualquer lugar.

Não importa se vocês gostam de estrelas, plantas, números ou histórias.

O conhecimento precisa de vocês.

Nunca deixem que digam que vocês não pertencem.

O universo é grande o suficiente para todas nós.

Princípio Ético de Uso de Conhecimentos Indígenas

Está cada vez mais claro que ensinar conhecimentos indígenas é ético apenas quando:

  • acontece com consentimento,
  • com respeito aos protocolos comunitários
  • e o reconhecimento da soberania cultural dos povos indígenas.

As informações apresentadas aqui pretendem, de forma indireta, provocar interesse, empatia e respeito pelos conhecimentos tradicionais dos povos indígenas.

Coleção Mulheres STEM

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