Mulheres STEM: Kim TallBear

Imagem de capa: Dra. Kim Tallbear. Fonte: site oficial kimtallbear.com.

Em 2026, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (Brasil) vai celebrar o tema Mulheres na Ciência. Vamos aproveitar para divulgar ações voltadas para Mulheres e Diversidade na Ciência.

Iniciaremos, com os posteres educativos do Programa Woman in STEM, Diversity in STEM, uma iniciativa canadense da Ingenium que visa engajar, promover e manter o interesse de jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).

Essas pessoas sempre fizeram contribuições importantes para as áreas de STEM ao longo da história, mas a desigualdade persiste, especialmente nos mais altos escalões da academia e da indústria.

Sua missão é contribuir para os esforços internacionais em prol da equidade em STEM, celebrando conquistas e defensores, e lançando luz sobre preconceitos persistentes, muitas vezes implícitos. Existem múltiplas barreiras estruturais e culturais que contribuem para essa situação, e as causas são complexas. A Ingenium reconhece isso e desenvolve diversas estratégias sustentáveis e de longo prazo para engajar jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas em STEM.

O objetivo da iniciativa é combater a sub-representação em STEM e contribuir para os esforços em prol da equidade nessas áreas.

Apresentamos aqui a série de pôsteres educativos criados pela Ingenium, com cada semana, um pôster da série, usado com permissão.

Kim Tallbear, a Poderosa Ursa Grande

O trabalho de Tallbear explora o impacto histórico e contínuo das práticas STEM ocidentais sobre a governança, terras e autodefinição indígenas.

Ela promove a bioética e a ciência genômica em apoio à tomada de decisões indígenas.

Pôster Ingenium

Para me Conhecer Melhor

Cheguem mais perto, vou contar minha história

Antes de tudo, quero que vocês saibam uma coisa importante.

Eu também já fui uma menina cheia de dúvidas, medos e sonhos. E eu não parecia com a maioria das pessoas que vocês veem nos livros de ciência.

Eu nasci em 1968, em um hospital simples, na cidade de Pipestone, no estado de Minnesota nos EUA. Cresci indo e voltando entre reservas indígenas de Sisseton e Flandreau, em Dakota do Sul.

Às vezes eu morava perto da família, às vezes longe. Isso não foi fácil.

Uma Poderosa Ursa Grande

Meu nome Tallbear foi uma tradução para o inglês imposta por agentes coloniais.

Nossos nomes indígenas ancestrais são relacionais, e podem mudar ao longo da vida. Normalmente, eles combinam um animal (ursa) e uma qualidade (poderosa, grande).

Se pudéssemos reconstruir como um padrão tradicional Dakota, seria Mato Tȟáŋka, a Ursa Grande e Poderosa. Deste modo, nasci com um significado e grande responsabilidade espiritual associado ao meu nome: a força, a proteção, a autoridade moral e a importância comunitária.

Minha história está ligada às terras, às comunidades e às lutas dos povos indígenas da América do Norte. Eu sou uma cidadã da Nação Sisseton Wahpeton Oyate, um povo Dakota, mas também tenho ancestrais Cheyenne e Arapaho, além de raízes Cree e Métis do Canadá.

E tive algo muito poderoso: eu fui criada por três mulheres fortes. Minha mãe, minha avó e minha bisavó. Elas me ensinaram a ouvir, a observar e a nunca esquecer quem eu sou. Foram elas que lhe ensinaram valores como resistência, cuidado coletivo e orgulho de minha identidade indígena.

Ciência não é só números…

E, vocês sabem? Quem cuida de nós nos ensina ciência também — mesmo fora da escola. Elas me ensinaram sobre a terra, sobre responsabilidade e sobre comunidade.

Minha casa era politicamente ativa. Conversas sobre injustiça, direitos indígenas e desigualdade faziam parte do dia a dia.

Minha mãe sempre reforçou algo fundamental: a educação poderia ser um caminho para enfrentar a pobreza e transformar a realidade, mesmo dentro de um sistema muito injusto com povos indígenas.

Na escola, eu quase nunca via pessoas indígenas como eu nos livros. Os cientistas pareciam sempre homens, brancos, de jaleco. Às vezes eu pensava: ‘Será que esse lugar é para mim?

Talvez vocês já tenham sentido isso. Se sentiram invisíveis. Isso dói. Mas isso não significa que vocês não pertençam.

Mas, persisti e fui para a universidade. Estudei planejamento comunitário, depois planejamento ambiental. Entrei em lugares muito grandes, como o MIT. E, meninas, vou ser honesta: foi assustador. Mas eu aprendi a fazer perguntas.

Aprendi que ciência não é só números — é sobre quem decide, quem é ouvido e quem fica de fora.

Eu comecei meus estudos universitários na Universidade Cristã do Texas, mas depois segui para a Universidade de Massachusetts, em Boston, onde me formei em Planejamento Comunitário. Mais tarde, conquistei um mestrado em Planejamento Ambiental no prestigiado Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Trabalhei cerca de 10 anos como planejadora ambiental, colaborando com: governos tribais, agências federais dos EUA e organizações indígenas nacionais. Esse período foi essencial para que eu entender, na prática, como decisões técnicas e científicas afetam diretamente as terras, a saúde e a autonomia dos povos indígenas.

Ciência sem respeito, machuca…

Foi aí que percebi algo grave: cientistas vinham estudar nossos corpos, nosso DNA, nossas histórias… sem pedir permissão. Eu pensei: isso não está certo. Ciência sem respeito machuca.

Por isso, voltei a estudar. Em 2005, conquistei o doutorado em História da Consciência na Universidade da California, em Santa Cruz, estudando criticamente ciência, tecnologia, colonialismo e poder. Não para ser como os outros cientistas, mas para mudar a ciência por dentro.

Eu quero uma ciência que ajude nossos povos a tomar decisões.

Que respeite nossas terras, nossos corpos e nossas formas de viver.

Eu me tornei professora em várias universidades importantes, no Canadá e nos Estados Unidos.

E conquistei um marco histórico ao me tornar a primeira detentora da Canada Research Chair em Povos Indígenas, Tecnociência e Sociedade, um dos maiores reconhecimentos acadêmicos do Canadá.

Atualmente, sou professora de Estudos Indígenas Americanos na Universidade de Minnesota, retornando às terras Dakota para estar mais próxima à minha comunidade e família.

Atualmente, eu ajudo a formar jovens indígenas em Ciência; a criar programas para que meninas e meninos aprendam Genética sem perder sua identidade. Porque não quero que vocês pensem que precisam deixar quem são do lado de fora do laboratório.

Escrevi o livro Native American DNA: Tribal Belonging and the False Promise of Genetic Science, uma referência mundial sobre genética e identidade indígena.

Sou cofundadora do programa de Estágio de Verão para Povos Indígenas em Genômica (SING – Summer Internship for Indigenous Peoples in Genomics) que forma jovens indígenas em genômica, bioética e soberania científica, hoje com centenas de participantes ao redor do mundo.

E fui agraciada com o prêmio Genome Canada Societal Impact Award de 2025/2026 pelo impacto ético e social que provoquei na Ciência.

Meninas, vocês não precisam escolher

entre ser cientistas e ser quem são.
Vocês pertencem à ciência.

Suas perguntas são importantes.

Suas histórias são conhecimento.

E se alguém disser que ciência não é lugar para vocês…

lembrem-se: eu estou aqui porque não acreditei nisso.

Coleção Mulheres STEM

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