Imagem de capa: A professora Shohini Ghose foi a diretora fundadora do Centro de Mulheres na Ciência da Universidade Wilfred Laurier, Dawn Bazely, 2018. Wikipedia, Licença CC0.
Em 2026, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (Brasil) vai celebrar o tema Mulheres na Ciência. Vamos aproveitar para divulgar ações voltadas para Mulheres e Diversidade na Ciência.
Iniciaremos, com os posteres educativos do Programa Woman in STEM, Diversity in STEM, uma iniciativa canadense da Ingenium que visa engajar, promover e manter o interesse de jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).
Essas pessoas sempre fizeram contribuições importantes para as áreas de STEM ao longo da história, mas a desigualdade persiste, especialmente nos mais altos escalões da academia e da indústria.
Sua missão é contribuir para os esforços internacionais em prol da equidade em STEM, celebrando conquistas e defensores, e lançando luz sobre preconceitos persistentes, muitas vezes implícitos. Existem múltiplas barreiras estruturais e culturais que contribuem para essa situação, e as causas são complexas. A Ingenium reconhece isso e desenvolve diversas estratégias sustentáveis e de longo prazo para engajar jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas em STEM.
O objetivo da iniciativa é combater a sub-representação em STEM e contribuir para os esforços em prol da equidade nessas áreas.
Apresentamos aqui a série de pôsteres educativos criados pela Ingenium, com cada semana, um pôster da série, usado com permissão.
Shohini Ghose: Fazendo a Conexão
A Dra. Ghose é uma especialista renomada em Física Quântica e uma defensora fervorosa das mulheres em STEM.
Ela está comprometida em apoiar jovens mulheres em STEM a enfrentar barreiras e vieses sistêmicos para construir uma comunidade científica inclusiva.

Para me Conhecer Melhor
Narrativa ficcional baseada em fatos reais e a biografia de Shohini Ghose.
Olá, eu nasci em 1974, em Mumbai (Bombaim) e cresci em Delhi, na Índia.
Desde cedo quis entender como o mundo funcionava.
Quando criança, conheci a história de Rakesh Sharma, o primeiro astronauta indiano, o que despertou meu desejo inicial de ser astronauta e cientista. E isso não foi desencorajado por minha família – o que era comum na Índia daquela época.
Essa curiosidade me fez querer ser cientista e, no início dos anos 90, mudei para os Estados Unidos para estudar matemática e física na Miami University em Ohio, EUA.
Muitas vezes, eu era a única mulher em meus cursos e a única racializada, o que agravava os desafios das diferenças culturais.
Quando concluiu meu bacharelado em ambas as áreas, me mudei para Albuquerque para cursar a Universidade do Novo México e cursar meu doutorado em física.
Assédio de Gênero e Sexismo
No entanto, meu amor pela física começou a diminuir após sofrer assédio de gênero e sexismo. Eu me sentia perdida naquele momento da vida e não queria mais nada com física.
Eu tive que enfrentar: comentários depreciativos sobre mulheres na física; dúvidas constantes sobre minha competência; e expectativas mais baixas impostas em comparação a colegas homens. Era um ambiente hostil e excludente, especialmente nos anos iniciais da carreira, algo comum para mulheres em áreas altamente masculinizadas como a física teórica e quântica.
Durante a graduação e o doutorado, muitas vezes eu era a única mulher e, muitas vezes, a única pessoa não branca nas salas de aula e grupos de pesquisa. E me senti invisível, ignorada em discussões acadêmicas ou tratada como exceção. Minhas ideias eram, por vezes, desconsideradas até serem repetidas por colegas homens. Eu precisava comprovar excelência de forma constante, em um nível de exigência maior do que o aplicado a homens.
Esse período era socialmente hostil, marcado por: sensação de invisibilidade acadêmica; ausência de colegas mulheres; baixa expectativa em relação ao meu desempenho em física e um clima que fazia mulheres se sentirem “corpos estranhos” naquele espaço. Eu era tratada como exceção ou curiosidade, não como pertencente ao grupo — um mecanismo clássico de exclusão de gênero em STEM. Esse tipo de ambiente é reconhecido na literatura como gender harassment (assédio de gênero): não sexual, mas sistemático, baseado em estereótipos e deslegitimação.
Nós, mulheres éramos frequentemente interrompidas, ignoradas ou preteridas; nossas ideias ganhavam reconhecimento apenas quando repetidas por homens e havia uma expectativa implícita de que deveríamos “provar” nossa competência continuamente. Essas experiências não eram eventos isolados, mas parte de uma cultura institucional que normalizava esse tratamento.
E além disso, como uma mulher racializada, enfrentei camadas adicionais de exclusão, pois somos percebidas como menos “naturais” para a ciência; tínhamos menor acesso informal a redes de colaboração e sofríamos com estereótipos tanto de gênero quanto culturais.
Entretanto, em vez de tratar essas experiências apenas como desafios pessoais, passei a investigá‑las como fenômenos estruturais, com dados. Liderei pesquisas nacionais no Canadá mostrando que:
- a maioria das mulheres na física relata assédio de gênero;
- ambientes hostis afetam produtividade, saúde mental e permanência na carreira.
E, como resultado disso, fundei o Centre for Women in Science (WinS) e contribui para o Waterloo Charter on Equity in Physics. E desse modo, influenciando políticas de equidade em nível nacional e internacional. Minha experiência pessoal de sexismo foi um motor central dessa atuação.
A Paixão pela Física Quântica
Quando meu orientador de doutorado, Ivan H. Deutsch, me apresentou ao mundo da física quântica, minha paixão pela ciência foi reacendida. E assim, desenvolvi a tese “Dinâmica quântica e clássica de átomos em uma rede magneto‑óptica” (2003).
Nesse trabalho, investiguei: o comportamento de átomos frios confinados em redes magneto‑ópticas; a relação entre dinâmica clássica caótica e dinâmica quântica; como caos quântico pode influenciar fenômenos como: entrelaçamento quântico,tunelamento, transições entre regimes clássico e quântico.
Essa pesquisa ajudou a estabelecer conexões fundamentais entre: ótica atômica, caos e informação quântica — área que se tornaria o foco central da minha carreira científica.
Eu também frequentei a Universidade de Calgary para estudos de pós-doutorado em 2003.
Em 2005, recebi uma oferta para uma posição na Universidade Wilfrid Laurier como professora assistente, onde atualmente trabalho como Professora de Física e Ciência da Computação.
Também sou diretora fundadora do Laurier Centre for Women in Science e trabalha em projetos que chamam atenção para questões de gênero e diversidade na ciência.
As minhas pesquisas ajudaram a mostrar que a física quântica pode ser aplicada em diversos campos, desde a saúde até a transmissão de informações ao redor do mundo.
Eu, Poul S. Jessen, Souma Chaudhury, Brian E. Anderson capturamos o movimento de um átomo em escala quântica, além de observarmos como um par de átomos na escala quântica pode agir da mesma forma, apesar de estarem em grande parte separados um do outro.
Escrevendo Histórias
Em 2013, escrevi um livro didático de Astronomia, ASTRO, usado em universidades no Canadá, com Vesna Milosevic‑Zdjelar e L. Arthur Read (baseado no texto original de Dana Backman e Michael A. Seeds).



Em 2019, publiquei Clues to the Cosmos, livro de divulgação científica voltado ao público geral que explora perguntas fundamentais sobre o universo, física e cosmologia. Nesse mesmo ano, apresentei uma palestra TED sobre como computadores quânticos podem mudar positivamente o funcionamento do planeta.
Em 2023, publiquei o livro Her Space, Her Time: How Trailblazing Women Scientists Decoded the Hidden Universe, vencedor do Science Writers and Communicators of Canada Book Award (2023). O livro dialoga com minha trajetória ao transformar minha vivência de invisibilidade na ciência em uma reconstrução rigorosa e inspiradora da presença histórica das mulheres na física. A pesquisa de Shohin Ghose em física foi parcialmente financiada pelo NSERC.

Físicas e astrônomas de todo o mundo transformaram a ciência e a sociedade, mas os papéis cruciais que desempenharam em suas áreas nem sempre são reconhecidos. Esse livro reúne as histórias dessas mulheres notáveis para celebrar suas contribuições científicas inesquecíveis.
Cada capítulo do livro explora um tópico científico e explica como as mulheres apresentadas naquele capítulo revolucionaram essa área da física e da astronomia. Aborda também aspectos específicos das experiências das mulheres na física e na astronomia: no capítulo sobre o tempo, por exemplo, conhecemos Henrietta Leavitt e Margaret Burbidge, que ajudaram a descobrir o Big Bang e o calendário cósmico; no capítulo sobre exploração espacial, conhecemos a cientista aeroespacial Anigaduwagi (Cherokee) Mary Golda Ross, que ajudou a tornar possíveis os pousos na Lua; E no capítulo sobre partículas subatômicas, conhecemos Marietta Blau, Hertha Wambacher e Bibha Chowdhuri, que contribuíram para a descoberta dos blocos de construção do universo e, ao fazê-lo, desempenharam um papel crucial na definição de quem pode se dedicar à física hoje.
“Seu Espaço, Seu Tempo” é uma história coletiva de inovação científica, liderança inspiradora e superação da invisibilidade que deixará uma impressão duradoura em qualquer leitor curioso sobre as pioneiras e inovadoras que iluminaram nossa compreensão do universo. Algumas das cientistas apresentadas no livro são: Williamina Fleming, Annie Jump Cannon, Cecilia Payne-Gaposchkin, Antonia Maury, Henrietta Leavitt, Margaret Burbidge, Mary Golda Ross, Dilhan Eryurt, Claudia Alexander, Joyce Neighbors, Mulheres Navajo de Shiprock, Harriet Brooks, Marie Curie, Lise Meitner, Marietta Blau, Hertha Wambacher, Bibha Chowdhuri, Wu Chien-Shiung, Mulheres do Projeto Manhattan e Vera Rubin.
Histórias incríveis de mulheres incríveis. Quem sabe a próxima história é a sua!

