Mulheres STEM: Jill Tarter

Imagem de capa: Jill Tarter. Entrevista Superando as adversidades. (c) SETI.

Em 2026, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (Brasil) vai celebrar o tema Mulheres na Ciência. Vamos aproveitar para divulgar ações voltadas para Mulheres e Diversidade na Ciência.

Iniciaremos, com os posteres educativos do Programa Woman in STEM, Diversity in STEM, uma iniciativa canadense da Ingenium que visa engajar, promover e manter o interesse de jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).

Essas pessoas sempre fizeram contribuições importantes para as áreas de STEM ao longo da história, mas a desigualdade persiste, especialmente nos mais altos escalões da academia e da indústria.

Sua missão é contribuir para os esforços internacionais em prol da equidade em STEM, celebrando conquistas e defensores, e lançando luz sobre preconceitos persistentes, muitas vezes implícitos. Existem múltiplas barreiras estruturais e culturais que contribuem para essa situação, e as causas são complexas. A Ingenium reconhece isso e desenvolve diversas estratégias sustentáveis e de longo prazo para engajar jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas em STEM.

O objetivo da iniciativa é combater a sub-representação em STEM e contribuir para os esforços em prol da equidade nessas áreas.

Apresentamos aqui a série de pôsteres educativos criados pela Ingenium, com cada semana, um pôster da série, usado com permissão.

Jill Tarter: A cientista que fez Contato!

A busca da Dra. Tarter por inteligência extraterrestre inclui o trabalho no High Resolution Microwave Survey da NASA e ser Diretoria do Centro de Pesquisa SETI, o Search for Extraterrestrial Intelligence Institute.

Pôster Ingenium

Para Me Conhecer Melhor

Olá, eu sou Jill Cornell Tarter. Eu nasci na cidade de Nova Iorque em 1944.

Meu pai, Jill Tarter incentivou minha curiosidade científica, em uma época em que mulheres eram desencorajadas a seguir carreiras técnicas. Ele me estimulou a questionar, observar o mundo natural e desafiar normas de gênero, apoiando meu desejo declarado, ainda criança, de me tornar engenheira.

Durante nossas viagens familiares à Flórida, nós caminhavamos pelas praias à noite, observando o céu estrelado, o que foi a origem direta do meu fascínio pelo cosmos e pela vida fora da Terra. Ele faleceu quando eu tinha 12 anos, e observar o céu me conectava novamente com ele.

Com “Sir” Arthur Charles Clarke com a sua série Odisseia Espacial e o seu Problema de 3 Corpos, com Alexander Gillespie Raymond Jr., criador dos quadrinhos de Flash Gordon e com outras influências de infância, eu cresci totalmente convencida de que há vida alienígena inteligente entre as estrelas.

Queria fazer marcenaria, mas me mandaram fazer economia doméstica

Sempre fui uma moleca, e queria fazer marcenaria no Ensino Médio. Mas, sendo menina, fui obrigada a escolher economia doméstica. Esse tipo de viés de gênero me acompanhou até o final da adolescência, quando me negaram uma bolsa para a Universidade Cornell.

Eu era descendente de Ezra Cornell, fundador e principal benfeitor da Universidade Cornell. Ao me candidatar à universidade, tentei acessar uma bolsa reservada a descendentes de Ezra Cornell. Mas, a universidade me informou que a bolsa era válida apenas para descendentes homens e me excluíram por ser mulher.

Mesmo assim, recebi uma bolsa integral de cinco anos da empresa Procter & Gamble para cursar Engenharia Física na Universidade Cornell, entre 1961 e 1966. E, assim, comecei meus estudos de engenharia sendo a única mulher em uma turma de 300 alunos.

Eu ficava muito isolada e afastada dos exercícios de integração em equipe, mas me mantive forte e me formei com distinção antes de seguir para a Universidade da Califórnia, onde obteve mestrado e doutorado em Astronomia.

O Observatório de Arecibo

Com formação tanto em engenharia quanto em astronomia, finalmente estava em posição não só de fazer a pergunta “estamos sozinhos?”, mas de realmente tentar descobrir.

Nessa linha, tenho duas grandes realizações profissionais como pesquisadora no Programa Search for Extraterrestrial Intelligence Institute (Instituto de Busca por Inteligência Extraterrestre, SETI).

Meu trabalho no High Resolution Microwave Survey (Levantamento de Micro-ondas de alta resolução), um grande projeto científico da NASA iniciado no começo da década de 1990, tinha um objetivo muito especial: Procurar sinais de civilizações inteligentes fora da Terra. Nós queríamos descobrir se alguém em outro planeta estava tentando se comunicar usando ondas de rádio, assim como nós fazemos com rádio, TV e Wi‑Fi.

Eu fui a cientista-chefe do HRMS entre 1992 e 1993. Isso significa que eu era uma das pessoas responsáveis por

decidir o que procurar, como procurar e como saber se um sinal era real ou só “barulho” do espaço.

Assim, eu trabalhei no fabuloso Observatório de Arecibo, em Porto Rico, um radiotelescópio de 305 metros de diâmetro, simplesmente o maior do mundo na época!

Panorama do Observatório de Arecibo. Evilkala, Porto Rico, 2013. Wikipedia. Licença CC-BY-SA-3.0.

Imagine o seguinte:

O Universo é como uma sala enorme e barulhenta.

A Terra está tentando ouvir uma música muito fraca vindo de muito longe.

O trabalho do HRMS era:

  • Usar radiotelescópios gigantes (antenas enormes).
  • “Sintonizar” milhões de frequências diferentes de rádio.
  • Ver se alguma delas parecia artificial, ou seja, feita por tecnologia e não pela natureza.

Eu ajudei a:

  • Decidir quais estrelas e sistemas planetários eram mais promissores para buscar vida inteligente.
  • Definir o que seria um “sinal suspeito”: um sinal constante, organizado e específico (diferente de ruído natural). Algo que não fosse explicável por estrelas, planetas ou fenômenos naturais.
  • Criar regras científicas rígidas para garantir que o projeto fosse ciência séria, e não ficção científica. Ensinar a equipe a duvidar primeiro, testar, repetir e só então aceitar um resultado.

Graças ao nosso trabalho:

  • Aprendemos como procurar melhor.
  • Desenvolvemos tecnologias mais avançadas.
  • Criamos métodos que são usados até hoje no SETI.

Quando o Congresso dos EUA, liderado pelo senador Richard Bryan de Nevada, cortou o financiamento da HRMS em 1993, eu não desisti. Ajudei a transformar o projeto em algo novo, chamado Project Phoenix, agora financiado por instituições científicas independentes para manter viva a busca por vida inteligente.

O Projeto Phoenix foi um estudo de uma década usando telescópios em vários observatórios internacionais. Eu criei regras para não cair em erro com o lema: “Primeiro, desconfiar.”

Nós precisavamos, antes, provar que um sinal:

  • Não vinha da Terra (satélite, radar, telefone).
  • Não era natural (pulsar, estrela, gás).
  • E só depois poderia ser considerado algo artificial.

O Projeto Phoenix analisou cerca de 750 estrelas, cada uma por várias horas e em milhões de frequências diferentes.

Nada de achar ET em um dia. Não procurávamos “OVNIs, mas sim evidências de vida inteligente.

Com o Projeto, criamos as melhores técnicas de busca já feitas; treinamos gerações de cientistas e mostramos que a SETI pode ser uma ciência séria, e não ficção científica.

Jantar com a família Sagan

Um dia fui convidada a jantar com Carl Sagan e Ann Druyan.

Carl queria me mostrar um livro e disse que eu reconheceria uma das personagens da história.

O livro se chamava Contato e foi lançado em 1985, com a personagem Dra. Eleanor “Ellie” Arroway, uma radioastrônoma, líder de um projeto parecido com o SETI e uma mulher enfrentando resistência em um meio dominado por homens.

Isso mesmo, a personagem do livro (e do filme) foi inspirada totalmente na minha história!

Quando eu não estava procurando no céu, você podia me encontrar nele — pilotando o avião que comprei com meu marido William “Jack” Welch no final dos anos 1970.

Embora não voe mais, atualmente faço parte do conselho de administração do Allen Telescope Array, que oferece aos pesquisadores maior velocidade e alcance na busca por sinais de rádio provenientes de tecnologias distantes.

Também escrevi dezenas de publicações e ajudei a desenvolver guias de ensino de ciências do 3º ao 12º ano.

Em 1989, recebi o Prêmio de Realização Vitalícia da Women in Aerospace e o Prêmio TED de 2009. Tenho duas Medalhas de Serviço Público da NASA e fui nomeada uma das  pessoas mais influentes do TIME 100 em 2004 e uma das  pessoas mais influentes no espaço do TIME 25 em 2012.

Eu adoro ter sido imortalizada na personagem de Jodie Foster no filme Contato.

Conceitos e Conexões derrubando Estereótipos

A Dra. Jill Tarter era frequentemente a única mulher em suas aulas de engenharia e de astronomia. Com o tempo, ela se tornou uma das várias mulheres a desafiar o estereótipo sobre a aparência de um cientista. Quando pedidas para desenhar um cientista, a maioria das pessoas desenha um homem caucasiano mais velho, de cabelo branco e vestido com jaleco.

Os estereótipos estão mudando: Estudos do “Draw-A-Scientist” (Desenhe um Cientista) dos últimos 50 anos mostram que desenhos infantis de cientistas mostraram mais mulheres nas últimas décadas (embora não mais do que homens (*).

A Dra. Jill Tarter foi a inspiração real para a personagem de Jodi Foster no filme do livro Contato de Carl Sagan.

4º ao 6º ano

Estereótipos são generalizações de grupos de pessoas que frequentemente são negativas e implicam que todas as pessoas em uma categoria demográfica são iguais.

  • Que exemplos de estereótipos de gênero você consegue lembrar?
  • Qual é o estereótipo de cientista?

6º ao 8º ano

Estereótipos são generalizações de grupos de pessoas que frequentemente são negativas e implicam que todas as pessoas em uma categoria demográfica são iguais.

  • Como os estereótipos sobre mulheres e cientistas se comparam entre si?
  • Como os estereótipos de gênero impactam as mulheres no ambiente de trabalho?

9º ano +

Estereótipos são generalizações de grupos de pessoas que frequentemente são negativas e implicam que todas as pessoas em uma categoria demográfica são iguais.

  • Como os estereótipos sobre mulheres e cientistas se comparam entre si?
  • De que maneiras os estereótipos de gênero podem impactar negativamente as mulheres em STEM na educação e na indústria?

* Referências: Miller, D. I., Nolla, K. M., Eagly, A. H., & Uttal, D. H. (2018). The Development of Children’s Gender‐Science Stereotypes: A Meta‐analysis of 5 Decades of US Draw‐A‐Scientist Studies. Child development.

Coleção Mulheres STEM

Deixe um comentário