Mulheres STEM: Joyce Irene Boye

Imagem de capa: Foto de Joyce I. Boye. Fonte: Instagram / Inventures.

Em 2026, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (Brasil) vai celebrar o tema Mulheres na Ciência. Vamos aproveitar para divulgar ações voltadas para Mulheres e Diversidade na Ciência.

Iniciaremos, com os posteres educativos do Programa Woman in STEM, Diversity in STEM, uma iniciativa canadense da Ingenium que visa engajar, promover e manter o interesse de jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).

Essas pessoas sempre fizeram contribuições importantes para as áreas de STEM ao longo da história, mas a desigualdade persiste, especialmente nos mais altos escalões da academia e da indústria.

Sua missão é contribuir para os esforços internacionais em prol da equidade em STEM, celebrando conquistas e defensores, e lançando luz sobre preconceitos persistentes, muitas vezes implícitos. Existem múltiplas barreiras estruturais e culturais que contribuem para essa situação, e as causas são complexas. A Ingenium reconhece isso e desenvolve diversas estratégias sustentáveis e de longo prazo para engajar jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas em STEM.

O objetivo da iniciativa é combater a sub-representação em STEM e contribuir para os esforços em prol da equidade nessas áreas.

Apresentamos aqui a série de pôsteres educativos criados pela Ingenium, com cada semana, um pôster da série, usado com permissão.

Como cientista pesquisadora, o trabalho de Boye foca no processamento, segurança e qualidade de alimentos. Sua pesquisa sobre leguminosas e soja lhe rendeu diversos prêmios nacionais e internacionais.

Pôster Ingenium

Olá, meu nome é Joyce Irene Boye e eu sou uma pesquisadora.

Quero contar um pouco da minha história para vocês, porque talvez, em algum ponto dela, você se reconheça — ou descubra que a ciência também pode ser o seu caminho.

Eu cresci em Gana, na África Ocidental, com o Oceano Atlântico ao sul do país.

Desde muito cedo, eu gostava de observar o mundo ao meu redor. Sempre me perguntava como as coisas funcionavam, especialmente os alimentos:

  • Por que alguns duravam mais do que outros?
  • Por que certos grãos eram tão nutritivos?
  • Como algo tão simples quanto um feijão podia alimentar tantas pessoas?

Essas perguntas, que pareciam pequenas, carregavam grandes possibilidades.

Quando cresci, escolhi estudar Ciência e Tecnologia dos alimentos, uma área que une química, biologia, nutrição e cuidado com a vida humana.

Ao longo da minha formação acadêmica, enfrentei desafios — como muitas meninas que escolhem caminhos onde ainda somos minoria. Mas aprendi algo muito importante:

o conhecimento cresce quando insistimos, mesmo quando duvidam de nós.

Completei minha graduação em Engenharia Química na Universidade de Ciência e Tecnologia, em Gana (atualmente Kwame Nkrumah University of Science and Technology – KNUST).

Eu era a única mulher em minha turma de engenharia, e tive que enfrentar forte preconceito de gênero durante a graduação.

“Quando eu era criança, aprendi que 40 mil crianças morriam de fome todos os dias. Achei isso inaceitável e que, se pudesse fazer algo para diminuir esses números, eu faria. Foi por isso que me concentrei em alimentação e agricultura nos meus estudos de pós-graduação.” Entrevista Agro Info.

Eu me mudei de Gana para o Canadá para realizar estudos de pós-graduação, escolhendo a área de alimentos por seu impacto direto na nutrição, segurança alimentar e combate à fome. Assim, cursei meu doutorado em Ciência dos Alimentos no Departamento de Ciência dos Alimentos e Química Agrícola da McGill University, em Montreal, durante o período de 1990 a 1995.

“Quando cheguei ao Canadá, descobri que apenas alguns meses antes, em dezembro de 1989, 14 mulheres do curso de engenharia mecânica da École Polytechnique de Montreal haviam sido assassinadas a tiros em sua sala de aula. Foi bastante traumático”. Entrevista Agro Info.

Em 6 de dezembro de 1989, um homem chamado Marc Lépine, de 25 anos, entrou armado na École Polytechnique de Montréal. Ele invadiu uma sala de aula de engenharia mecânica, separou homens e mulheres e ordenou que os homens saíssem. Em seguida, declarou que estava “combatendo o feminismo” e executou as mulheres presentes. Ao todo, 14 mulheres foram assassinadas e outras pessoas ficaram feridas antes de o agressor cometer suicídio.

O massacre refletiu um clima mais amplo de antifeminismo; não foi apenas um evento individual, mas um sintoma de misoginia estrutural existente na sociedade da época.

O ataque teve impactos profundos nas políticas públicas canadenses e levou a leis mais rígidas de controle de armas (como o Bill C‑68, de 1995) e impulsionou protocolos de resposta policial a massacres.

E marcou a memória e ação social da sociedade canadense. O 6 de dezembro foi oficialmente declarado no Canadá como o Dia Nacional de Lembrança e Ação contra a Violência contra as Mulheres. Tornou-se um marco para o debate sobre: violência de gênero; feminicídio e misoginia radical.

Continuei meus estudos com dedicação, sempre acreditando que a ciência deveria servir às pessoas. Busquei uma formação sólida, avançando em pesquisas que conectavam alimento, saúde e sociedade. Cada diploma não foi apenas um título, mas uma ferramenta para transformar ideias em soluções reais.

Atuei como pesquisadora na área de processamento, segurança e qualidade de alimentos. Meu foco sempre foi garantir que os alimentos cheguem às mesas das famílias não apenas em quantidade, mas com qualidade e valor nutricional.

Grande parte da minha pesquisa se concentrou em leguminosas e soja — alimentos simples, acessíveis e extremamente poderosos. Estudar esses grãos me permitiu contribuir para sistemas alimentares mais sustentáveis, saudáveis e inclusivos. Trabalhei para melhorar a forma como esses alimentos são processados, conservados e aproveitados, reduzindo desperdícios e aumentando seus benefícios para a saúde.

Também organizei e escrevi livros importantes para a ciência e tecnologia de alimentos saudáveis, seguros e nutritivos que orientam as futuras gerações e industrias de alimentos.

Allergen Management in the Food Industry (2010) aborda de forma sistemática os desafios relacionados ao controle e gerenciamento de alérgenos na indústria de alimentos. Na obra discuto os riscos associados à contaminação cruzada, rotulagem inadequada e falhas nos processos produtivos. Também apresenta boas práticas industriais, estratégias regulatórias e abordagens científicas para garantir a segurança do consumidor, sendo uma referência para profissionais da indústria, reguladores e pesquisadores em segurança alimentar.

Green Technologies in Food Production and Processing (2012): o foco deste livro está no uso de tecnologias sustentáveis e ambientalmente responsáveis na produção e no processamento de alimentos. O livro explora métodos para redução do consumo de energia, água e geração de resíduos, além de discutir inovações tecnológicas alinhadas à economia verde. É voltado para pesquisadores, engenheiros de alimentos e formuladores de políticas públicas interessados em sustentabilidade no setor alimentício.

Nutraceutical and Functional Food Processing Technology (2014/2015): este livro oferece uma visão abrangente sobre alimentos funcionais e nutracêuticos, desde a extração de compostos bioativos até sua incorporação em produtos alimentícios comerciais. A obra discute ingredientes como fibras, probióticos, fitoquímicos e peptídeos bioativos, além de aspectos regulatórios, segurança, alegações de saúde e impacto do processamento na bioatividade. É amplamente utilizada tanto na academia quanto na indústria.

Ao longo dessa jornada, tive a honra de receber prêmios nacionais e internacionais.

Fui uma Bolsista Embaixadora da Rotary Foundation – um título concedido a pesquisadores com excelência acadêmica e potencial de liderança global, permitindo atuação internacional em ciência e políticas públicas.

E em 2016, fui nomeada Embaixadora Especial para a América do Norte no Ano Internacional das Leguminosas, pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO / ONU) em reconhecimento às minhas pesquisas com feijões, lentilhas, grão-de-bico e soja, alimentos fundamentais para a nutrição global e a segurança alimentar.

Fui Diretora Geral do Ramo de Ciência e Tecnologia da Agricultura e Agroalimentação do Canadá na região das Pradarias de 2019 a 2023.  Atualmente, sou Diretora Geral da Diretoria de Alimentos, Ramo de Produtos de Saúde e Alimentos do Ministério da Saúde do Canadá.

Fico feliz com esses reconhecimentos, mas quero que vocês saibam de algo fundamental: o maior prêmio foi saber que meu trabalho poderia ajudar pessoas, comunidades e futuras gerações.

“Ser transparente exige coragem, mas as mulheres que progrediram em suas carreiras precisam se manifestar – não é fácil –, mas precisamos encontrar a coragem para sermos defensoras.” Entrevista Agro Info.

Ser mulher e cientista, especialmente uma mulher negra na ciência, nunca foi apenas sobre mim.

Sempre senti que carregava comigo outras meninas — aquelas que ainda não se veem nos livros, nos laboratórios ou nas universidades. Cada conquista foi também um convite para que mais meninas se sentissem pertencentes a esses espaços.

Uma mensagem para você

Se você gosta de fazer perguntas, de experimentar, de observar, de imaginar soluções — a ciência precisa de você. Não importa de onde você vem, como você fala ou como você se parece.

Seu olhar importa.

Sua curiosidade importa.

Sua mente importa.

A ciência não é feita apenas de tubos de ensaio e fórmulas difíceis.

Ela é feita de pessoas que se importam com o mundo e querem torná-lo melhor.

E talvez, um dia, eu leia sobre a sua pesquisa, o seu prêmio, a sua contribuição.

Nunca deixe ninguém dizer que ciência não é lugar para meninas.

Ela é — e sempre será — um lugar para mentes curiosas e corajosas como a sua.

Coleção Mulheres STEM

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