Mulheres STEM: Gisèle Lamoureux

Imagem de capa: print-sreen de entrevista com Gisèle Lamoureux em 1995.

Em 2026, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (Brasil) vai celebrar o tema Mulheres na Ciência. Vamos aproveitar para divulgar ações voltadas para Mulheres e Diversidade na Ciência.

Iniciaremos, com os posteres educativos do Programa Woman in STEM, Diversity in STEM, uma iniciativa canadense da Ingenium que visa engajar, promover e manter o interesse de jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).

Essas pessoas sempre fizeram contribuições importantes para as áreas de STEM ao longo da história, mas a desigualdade persiste, especialmente nos mais altos escalões da academia e da indústria.

Sua missão é contribuir para os esforços internacionais em prol da equidade em STEM, celebrando conquistas e defensores, e lançando luz sobre preconceitos persistentes, muitas vezes implícitos. Existem múltiplas barreiras estruturais e culturais que contribuem para essa situação, e as causas são complexas. A Ingenium reconhece isso e desenvolve diversas estratégias sustentáveis e de longo prazo para engajar jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas em STEM.

O objetivo da iniciativa é combater a sub-representação em STEM e contribuir para os esforços em prol da equidade nessas áreas.

Apresentamos aqui a série de pôsteres educativos criados pela Ingenium, com cada semana, um pôster da série, usado com permissão.

Gisèle Lamoureux: Proteção e Promoção das Plantas Nativas

Lamoureux era especialista em plantas nativas do leste da América do Norte. Ela publicou muitos guias de campo importantes e foi uma grande apoiadora da proteção de plantas raras, especialmente o alho selvagem ameaçado de extinção.

Poster Ingenium.

Minha história com as plantas e com a vida

Olá, queridos jovens,

Meu nome é Gisèle Lamoureux, e hoje quero compartilhar com vocês a minha história — não apenas como botânica, mas como alguém que aprendeu a crescer com o mundo natural, assim como uma planta que encontra seu caminho em meio às adversidades.

Minhas raízes: infância e família

Nasci na cidade de Montreal em 1942 em um ambiente simples, mas profundamente conectado à natureza. Meus pais não eram cientistas, mas tinham um grande respeito pela terra. Foi com eles que aprendi meus primeiros valores: observar, cuidar e ter paciência.

Minha mãe me ensinou a perceber a beleza nas pequenas coisas — uma flor que nasce ao lado da estrada, uma folha com formas curiosas.

Meu pai, por sua vez, me mostrou a importância da disciplina e da curiosidade. Eles nunca me disseram exatamente que caminho seguir, mas sempre incentivaram minhas perguntas. E eu perguntava muito.

Na escola: descobrindo o mundo

Durante o ensino fundamental, eu era aquela criança que gostava de observar o jardim da escola mais do que brincar no recreio. Colecionava folhas, desenhava plantas e tentava entender como tudo funcionava.

No ensino médio, encontrei professores que mudaram minha vida. Um deles, em especial, percebeu minha paixão pela Biologia e me incentivou a estudar mais profundamente. Foi nesse momento que comecei a enxergar a Ciência não apenas como um aprendizado escolar, mas como um caminho de vida.

A universidade: escolhendo a Botânica

Ao entrar no ensino superior, escolhi estudar Botânica. Não foi uma decisão fácil — muitas pessoas achavam que era uma área limitada ou pouco valorizada. Mas eu sabia que ali estava minha vocação.

Na universidade, aprendi sobre ecologia, classificação de plantas, conservação e pesquisa científica. Tive contato com laboratórios, saídas de campo e projetos de pesquisa — experiências que ampliaram meu olhar sobre o mundo.

Também enfrentei desafios: dúvidas, dificuldades acadêmicas e até momentos de desânimo. Mas cada obstáculo me ensinou algo importante — assim como as plantas, nós também precisamos de tempo e esforço para crescer.

Iniciei minha carreira como professora do ensino fundamental, antes de obter um Bacharelado em Botânica pela Universidade de Montreal e um Mestrado em Ecologia Florestal pela Universidade Laval. O tema de minha pesquisa de mestrado foi a Flora das dunas (ecologia de dunas), especialmente nas Ilhas da Madeleine em Québec.

Além disso, estudei fotografia de natureza com o fotógrafo canadense Freeman Patterson, que é uma referência internacional nessa área. Foi um aprendizado especializado e artístico que se tornou uma parte essencial do meu trabalho científico, ajudando a documentar e divulgar as plantas.

Carreira e conquistas

Após me formar, comecei a trabalhar com pesquisa e educação ambiental. Dediquei minha vida a estudar as plantas e a importância da biodiversidade, especialmente em relação à conservação dos ecossistemas.

Em 1973, fundei com Francis Boudreau, Roger Larose, Yves Boudreault e Claude Allard, a Groupe Fleurbec, uma organização sem fins lucrativos dedicada a promover a flora do nordeste da América por meio de publicações como guias, das quais Lamoureux publicou nove.

Meus guias foram criados para popularizar a Botânica entre iniciantes e fornecer um guia definitivo para especialistas. Meu trabalho de pesquisa levou à nomeação francesa de mais de um quarto das plantas vasculares de Quebec onde antes não existiam.

Eu liderei um movimento para proteger o alho silvestre nativo de Quebec, que é uma espécie ameaçada, levando à adoção por parte do governo de Quebec de uma legislação que protege plantas nativas ameaçadas.

Assista uma entrevista com Gisèle Lamoureux (1995) sobre sua paixão pela flora nativa do Canadá.

Em 1996, fundei e presidi a FloraQuebeca, uma associação sem fins lucrativos dedicada ao conhecimento, promoção e proteção da flora em Quebec;

Após reivindicações feitas ao longo de mais de 35 anos por vários grupos, de 1996 a 1999 liderei um movimento bem-sucedido para substituir o emblema floral de Quebec, a flor-de-lis – um lírio nativo da Europa – pelo Northern Blueflag, um lírio nativo de Quebec. Assim, em 1999, o governo do Québec aprovou uma lei oficial. Essa lei substituiu o antigo símbolo floral (o lírio europeu / “lys de Madone”) por uma planta nativa. O novo emblema passou a ser o íris versicolor.

A lei consagra a íris azul como o novo emblema floral do Quebec. Através da variedade e harmonia das cores de suas flores, a íris azul ilustra perfeitamente a diversidade cultural do Quebec. Ela também destaca a importância da água e dos pântanos para o equilíbrio da natureza.

A flor-de-lis continua sendo símbolo oficial do Québec, mas no contexto da bandeira e heráldica. O que foi substituído foi o emblema floral botânico oficial, não o símbolo histórico da bandeira.

Participei de projetos científicos, escrevi artigos e contribuí para iniciativas de preservação. Também tive a oportunidade de colaborar com instituições e compartilhar conhecimento com outras pessoas, o que considero uma das partes mais gratificantes da minha trajetória.

Obras e legado

Uma das minhas maiores realizações foi ajudar a aproximar a Botânica da Sociedade — traduzindo conhecimentos técnicos em algo acessível e inspirador para todos.

Ao longo da minha carreira, participei da produção de materiais científicos e educativos, sempre com o objetivo de valorizar o conhecimento botânico e incentivar o respeito pela natureza.

Os meus livros mais importantes são principalmente guias de identificação de plantas que foram muito influentes na popularização da botânica no Québec. E os mais conhecidos são da famosa série de guias de campo Fleuberc:

  • Plantes sauvages printanières (1975)
  • Flore printanière (2002) – versão ampliada e mais completa do anterior
  • Plantes sauvages des villes et des champs (t. 1 e t. 2)
  • Plantes sauvages comestibles
  • Plantes sauvages du bord de la mer
  • Plantes sauvages des lacs, rivières et tourbières
  • Fougères, prêles et lycopodes

Além dos guias, publiquei também sobre o cultivo e plantas nativas alimentares:

  • Plantes sauvages au menu (sobre uso culinário de plantas)
  • Cultiver des plantes sauvages… sans leur nuire (como cultivar plantas sem prejudicar a natureza)
  • Atlas des plantes vasculaires de Terre-Neuve et Saint-Pierre-et-Miquelon (com Ernest Rouleau, minha grande obra científica.

Em minhas obras, procurei usar uma linguagem acessível (não só acadêmica), usei muitas fotografias coloridas para identificação prática de plantas no campo. E misturei conhecimentos de botânica, da ecologia e da cultura popular de centenas de espécies da América do Norte Oriental.

E produzi uma vasta coleção de fotografias científicas e documentais, com dezenas de milhares de imagens de plantas em seus habitats naturais.

Minhas fotos foram amplamente utilizadas em livros e guias botânicos, publicações científicas e materiais educativos. As imagens tinham dupla função: científica (identificação das espécies) e estética (valorização da natureza).

Mais do que títulos ou publicações, meu maior legado é o impacto nas pessoas — especialmente jovens como vocês, que podem se tornar os próximos cientistas, professores ou simplesmente cidadãos mais conscientes.

Uma mensagem para vocês

Gisele faleceu em 23 de junho de 2018, aos 75 anos, deixando uma mensagem para gerações de apaixonados pela flora local canadense.

Se posso deixar um conselho, é este:

Cultivem a curiosidade.

Observem o mundo.

Não tenham medo de seguir um caminho diferente.

A natureza nos ensina muito: crescer exige tempo, adaptação e coragem.

E você, assim como uma semente, tem dentro de si um enorme potencial.

Cuide disso.

Coleção Mulheres STEM

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